Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



24/02/08

Diabo vermelho


Demetris Christofias será o próximo presidente do Chipre. O político comunista venceu a segunda volta das eleições presidenciais com 53,63% de votos, contra 46,6% do conservador, Ioannis Kasoulides. Na Europa a 27, Chipre passa a ser o único país com um chefe de Estado comunista. A parte norte da ilha está ocupada desde 1974 pela Turquia e a situação não agrada nem à União Europeia, nem à população. Christofias defende o fim da divisão da ilha que tem ganho notoriedade com o turismo e com a entrada na UE. Quase 20 anos depois do início da queda do Bloco de Leste, um comunista volta ao poder. Reflexo ou não de uma mudança de mentalidades, o PC cipriota manteve os ideais, mas mudou o discurso e as figuras-chave do aparelho partidário. Substituiu o velho pelo novo e apontou às novas gerações. Moldou-se à democracia, atirou os velhos fantasmas ortodoxos para trás das costas e adaptou-se à realidade do século XXI. Não só sobreviveu, como ganhou.


Em Portugal, pelo contrário, as mudanças no Partido Comunista levam bastante mais tempo. Apesar de Jerónimo de Sousa ter catapultado o PCP para bons resultados nas eleições, invertendo uma tendência de perda de eleitores e deputados, os rostos continuam a ser os mesmos. Mesmo as caras mais novas, como Bernardino Soares, continuam na senda cinzenta e ultrapassada de um partido e de um discurso envelhecidos. Os que ousam pensar e querer um PC diferente têm de o fazer fora de portas, sob o risco de ostracização, como foram os casos de João Amaral ou Barros Moura. Apesar de adaptado à realidade democrática, o PCP continua demasiado agarrado à imagem do passado. A Revolução foi há quase 34 anos, o fim da União Soviética há quase 20. Se os comunistas portugueses se quiserem assumir como alternativa de poder têm de se transformar, de rejuvenescer, de transformar a cassete em CD e puxar por caras novas, por ideias deste século, por discursos bem elaborados, por um relacionamento moderno com a comunicação social. Se não ousarem arriscar, serão o mesmo partido de sempre, com as mesmas paredes de vidro de sempre, lutando pelo terceiro ou quarto lugar até ao dia em que os portugueses se fartem e lhes reservem um papel de figurante na realidade bipartidária.

22/02/08

Bom fim-de-semana!


Já sabem o que fazer este fim-de-semana? Sugestões não faltam, mas aqui ficam algumas. Umas mais revivalistas que outras, mas todas com garantia de qualidade e com destaque para a música. Divirtam-se!


  1. Um passeio no Alqueva, o Grande Lago. Da Marina da Amieira saem barcos com regularidade. E até dá para passar uns dias a bordo.

  2. Festival Internacional de Jazz em Portalegre. Amanhã é o último dia.

  3. Charles Aznavour amanhã no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. Ó tempo volta para trás!

  4. Amanhã em Setúbal, concerto de Mayra Andrade. O de Lisboa, no dia seguinte já está esgotado.

  5. Esta noite, o MusicBox, em Lisboa, dá cartas com os Reservoir Dogs (Rui Reininho, Tiago Bettencourt, Zé Pedro, Flak e Kalu, entre outros) numa homenagem à obra de Quentin Tarantino. Sim, vai estar cheio, mas vale a pena.

21/02/08

Foi ontem


O eclipse lunar foi esta noite.
E, de um momento para o outro, o Mundo mudou.
A liberdade de expressão tornou-se obrigatória.
O jornalismo encheu-se de causas.
Os melhores foram recompensados.
Os medíocres foram colocados no seu lugar.
Os abutres já não voam.
Há boas notícias para contar.
Há civismo, há gente feliz nas ruas.
O eclipse lunar foi esta noite.
E está tudo na mesma.

20/02/08

www.mvasm.com



Está online o museu virtual Aristides Sousa Mendes. Passaram 20 anos desde que o Parlamento português se decidiu a reabilitar o diplomata que, em 1940, contrariou as ordens de Salazar e da sua dúbia política em relação à II Guerra Mundial. A história é sobejamente conhecida, mas convém lembrar que o então cônsul de Portugal em Bordéus assinou milhares de vistos permitindo assim a fuga de refugiados numa França ocupada pelos nazis. Sousa Mendes foi destituído por Salazar e acabou por morrer na miséria em 1954. Este museu - www.mvasm.com - que visa lembrar aquilo que não deve ser esquecido, é uma iniciativa da Direcção-Geral das Artes e permite aceder a documentos, fotografias e filmes nunca vistos sobre Aristides de Sousa Mendes. Aquele que é considerado um dos últimos heróis portugueses ainda é uma pedra no sapato para algumas figuras proeminentes da sociedade portuguesa, saudosista dos tempos em que quem mandava, mandava e os outros baixavam as orelhas. Têm bom remédio. Como refere um curioso autocolante que circula por algumas paredes da cidade de Lisboa, se tem saudades de Salazar, dê um tiro na cabeça e vá ter com ele.

19/02/08

Madeira à frente

A Madeira caminha para a independência na sondagem cá do blog. Mas Canas de Senhorim está na luta. Os intuitos independentistas das Berlengas e de Olivença andam fracos. Vá lá, faltam quatro dias para as urnas serem encerradas. Por este andar, George W. Bush vai ter que apoiar a criação de um novo estado em pleno oceano Atlântico. Mais uma vez vos lembro, o vosso voto não vai contribuir com um euro para nenhuma organização humanitária caída em desgraça.

Hasta la democracia, siempre!


Fidel renunciou. Finalmente. Aquilo que deveria ter acontecido 10 ou 15 anos após a revolução cubana só aconteceu agora. O líder de Cuba já não o é. Afirmou ao orgão oficial do partido, o GRANMA, que não quer voltar à presidência ou ao comando das forças militares do país. Deixa tudo nas mãos do seu irmão, Raul. Muitos pensam que são farinha do mesmo saco, outros acreditam que Raul pode ser o elo que falta na transição para a democracia. Uma coisa é certa, Cuba nunca mais será a mesma, com tudo o que de bom e mau isso pode acarretar. Os tempos que se seguem serão decisivos para o futuro da ilha. Há, pelo menos, três caminhos que poderão ser seguidos: transição pausada e consistente para a democracia, continuar tudo na mesma até que o regime se torne autofágico ou voltar aos tempos de Batista, quando a ilha foi bordel norte-americano. Em qualquer das opções, qual será o papel dos cubanos de Miami? Será que, finalmente, vão fazer alguma coisa pelo seu país que não seja a participação em tentativas frustradas de apagar Fidel do mapa? O povo de Cuba, os cidadãos normais que não fugiram (por opção ou obrigação) e que têm passado pelo drama das senhas de racionamento, pela falta de liberdade de expressão, pelas miseráveis condições de vida, agradecem. Mas não se esqueçam de aproveitar as coisas boas que ficam do regime autoritário castrista. Porque, doa a quem doer, também existiram coisas boas. Educação, desporto ou saúde são apenas alguns exemplos. República Checa, Eslovénia ou Polónia souberam maximizar essas áreas fulcrais do comunismo nos tempos que se seguiram às suas transições para a democracia. E vejam bem onde é que esses países já estão. Leiam o comunicado de Fidel Castro em baixo ou em http://www.granma.cubaweb.cu/2008/02/19/nacional/artic03.html
Mensaje del Comandante en Jefe
Queridos compatriotas:
Les prometí el pasado viernes 15 de febrero que en la próxima reflexión abordaría un tema de interés para muchos compatriotas. La misma adquiere esta vez forma de mensaje.
Ha llegado el momento de postular y elegir al Consejo de Estado, su Presidente, Vicepresidentes y Secretario. (...)
Conociendo mi estado crítico de salud, muchos en el exterior pensaban que la renuncia provisional al cargo de Presidente del Consejo de Estado el 31 de julio de 2006, que dejé en manos del Primer Vicepresidente, Raúl Castro Ruz, era definitiva. El propio Raúl, quien adicionalmente ocupa el cargo de Ministro de las F.A.R. por méritos personales, y los demás compañeros de la dirección del Partido y el Estado, fueron renuentes a considerarme apartado de mis cargos a pesar de mi estado precario de salud.
Era incómoda mi posición frente a un adversario que hizo todo lo imaginable por deshacerse de mí y en nada me agradaba complacerlo. (...)
Mi deseo fue siempre cumplir el deber hasta el último aliento. Es lo que puedo ofrecer.
A mis entrañables compatriotas, que me hicieron el inmenso honor de elegirme en días recientes como miembro del Parlamento, en cuyo seno se deben adoptar acuerdos importantes para el destino de nuestra Revolución, les comunico que no aspiraré ni aceptaré- repito- no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe.
Fidel Castro Ruz
18 de febrero de 2008
5 y 30 p.m.
in Granma

18/02/08

Independência ou morte!


Livres e independentes. A sondagem desta semana aqui no no blog é para saber quais das quatro opções devem deixar de fazer parte de Portugal e seguir o exemplo do Kosovo. A escolha, como sempre, não vai ser fácil: Madeira, Olivença, Berlengas ou Canas de Senhorim. Têm uma semana para dizer aquilo que vos vai na alma. Quais destes torturados povos merecem finalmente um lugar na História, uma bandeira, um hino, um país?

Queremos Justiça!

'Não venhas tarde'. Metade dos votantes na sondagem da semana passada aqui no blog escolheu essa canção para caracterizar o estado da Justiça portuguesa. De facto, é preciso que ela surja mais rapidamente do que tem acontecido ou arriscamo-nos a perder a confiança no sistema. Se é que já não está irremediavelmente perdida... O segundo lugar foi para 'E nós, pimba!', com 25% - o claro retrato, se olharmos apenas para o título, de que quem se trama é o mexilhão. É quase sempre assim. 'Soltem os prisoneiros', a medida extrema, parece ter agradado a 16% das pessoas que participaram na sondagem e 'A casa da Mariquinhas' foi o fado escolhido por 8%. Obrigado a todos pela participação.

16/02/08

Morto?


Steve Fossett morreu. Está morto e não enterrado. O milionário norte-americano desapareceu em Setembro de 2007 quando sobrevoava o deserto Mojave, Nevada, nos EUA, ao comando de uma avioneta. Mas só ontem foi declarado oficialmente morto. O juíz Jeffrey Malak acedeu finalmente à vontade de Peggy, a mulher de Fossett, que vinha há alguns meses a solicitar a oficialização do óbito do milionário da indústria de serviços financeiros. O juíz decidiu, está decido. Morreu. Tinha 63 anos.

Fossett atravessou a nado o Canal da Mancha, participou numa corrida de 1875 km em trenós puxados por cães, no Alaska, correu as 24 Horas de Le Mans por duas vezes, bateu por oito vezes recordes do mundo de navegação à vela, atravessando numa das ocasiões o Oceano Atlântico em quatro dias e 17 horas, atravessou o Oceano Pacífico em balão de ar quente e tentou por seis vezes dar a volta ao Mundo nesse meio de transporte. Após cinco tentativas frustradas, numa delas acompanhado pelo também milionário Richard Branson, conseguiu finalmente, em Julho de 2002, tornar-se no primeiro homem a alcançar a façanha.

A 3 de Setembro de 2007, Fossett levantou voo do seu aeródromo privado e desapareceu. Sem pedidos de socorro, sem ter voltado a aterrar, sem sinais. Não seria fantástico que esta fosse a sua maior aventura de todas? Que se folheasse um jornal e se pudesse ler: "Farto da fama e da fortuna, Steve Fossett forjou a sua própria morte e desapareceu no deserto. Hoje, vive calma e tranquilamente numa ilha paradisíaca de onde apenas sai para bater recordes impossíveis e viver aventuras fantásticas sem que o Mundo tenha de saber disso. No final de cada expedição, Fossett volta ao seu paraíso na Terra, prepara um 'mojito', deita-se na areia branca e fina da praia e espera pelo pôr-do-sol." Essa sim, seria uma boa notícia, não a da sua morte, oficial ou oficiosa.

15/02/08

Vamos lá fazer as contas


José Sócrates está radiante. A taxa de desemprego está em tendência de descida, mas os números do Instituto Nacional de Estatística não mentem: é a mais alta dos últimos 10 anos. São cerca de 448 mil portugueses sem emprego. Em declarações à comunicação social, o Primeiro-Ministro mostra-se satisfeito por ver que, de trimestre para trimeste, a taxa tem vindo a descer. Óptimo! Ficamos todos contentes. Todos aqueles que acreditaram na promessa de 150 mil novos postos de trabalho estão radiantes. De acordo com o Governo já foram criados 98 mil e até 2009 são esperados os restantes. Mas a taxa de pessoas sem emprego é a mais alta dos últimos 10 anos. Não estou mesmo a perceber. Chumbei a Matemática mais do que uma vez, mas ainda sei fazer contas. Não tão bem como António Guterres, mas sei. E sei que para os números do desemprego em Portugal não contam os casos dos milhares de cidadãos nacionais que tiveram de ir trabalhar para Espanha e voltam a casa só ao fim-de-semana. Esses também contam para as estatísticas do desemprego ou foram discretamente esquecidos?