Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



15/04/08

Direito à greve


Pela primeira vez em 33 anos, o jornal francês LE MONDE não está nas bancas. A edição de hoje não chegou às mãos dos leitores porque os funcionários da conceituada publicação fizeram greve durante o dia de ontem. Os trabalhadores estão em protesto contra o plano de recuperação económica da empresa, uma vez que estão previstos 130 despedimentos e a venda de diversas publicações do grupo de comunicação. Cerca de um quarto da redacção do LE MONDE vai ser despedida, um número que se situa entre os 80 e os 90 jornalistas. Em 2007, a tiragem do jornal aumentou 1,5 % para 316 900 exemplares, mas os prejuízos chegaram aos 20 milhões de euros, num total acumulado de dívidas de 150 milhões de euros. Amanhã, os jornalistas do LE MONDE voltam a reunir-se para delinear estratégias.


Lá, como cá, aumentam os problemas laborais nos meios de comunicação social. Espera-se que o Le Monde não siga os tristes exemplos de A CAPITAL, O INDEPENDENTE ou GRANDE REPORTAGEM.

A Voz da Saudade

Hoje, às 21h, a seguir ao Telejornal, a RTP1 apresenta o documentário 'A Voz da Saudade', baseado numa brilhante reportagem do jornalista João Pombeiro, publicada na já - infelizmente - extinta revista GRANDE REPORTAGEM. A realização do documentário é de Joaquim Vieira, antigo director da publicação. Em 'A Voz da Saudade' conta-se a odisseia de uma mulher durante a guerra colonial. D. Estefânia, falecida recentemente, foi a mulher que transportou até aos militares portugueses as mensagens gravadas em bobines áudio pelos seus familiares. O grande jornalismo ainda tem um nome. Hoje, às 21h na RTP1. A não perder!

14/04/08

A inocência das crianças


O Tribunal de São João Novo, no Porto, condenou a oito meses de prisão efectiva um dos jovens envolvidos no caso Gisberta, por omissão de auxílio ao transexual que foi barbaramente assassinado por um grupo de adolescentes. Oito meses. E ainda terão de ser descontados a esta pena dois meses e cinco dias de prisão preventiva que o arguido Vítor já cumpriu. Ou seja, cinco meses e 25 dias. Os quais poderão ser cumpridos em prisão domiciliária. Em casa. João Grilo é o nome do juiz que presidiu ao colectivo que tomou esta decisão. A advogada de Vítor anunciou que, "em princípio" vai recorrer. O Ministério Público, esse, vai mesmo recorrer da decisão, porque tinha pedido uma pena inferior a esta. Queria apenas que o jovem Vítor fosse condenado a acompanhar, uma vez por semana e durante seis meses, o trabalho de uma instituição de apoio a sem-abrigo...


Em sua defesa, Vítor alegou que não tinha pedido ajuda porque poderiam pensar que ele tinha culpas no cartório ou que a ambulância não iria conseguir chegar ao local onde Gisberta foi espancada, humilhada e morta por um grupo de delinquentes, marginais e assassinos que, por serem demasiado novos e terem orquestrado uma defesa baseada na omissão e no esquecimento dos factos vão poder continuar a sua vida sem conhecerem castigo maior do que o da sua consciência. Que é a melhor coisa que lhes poderia ter acontecido, já que gente que faz isto a outro ser humano não tem consciência.


Gisberto Júnior, um brasileiro sem-abrigo, doente em fase terminal e transexual morreu em Fevereiro de 2006 afogado num fosso para onde foi atirado por um grupo de menores. Nenhum deles recebeu pena mais pesada do que 13 meses de internamento numa instituição.

À boleia com estranhos


A ideia já existe há muitos anos noutros países, mas dá os primeiros passos em Portugal. De acordo com a edição de hoje do jornal PÚBLICO, existem câmaras municipais portuguesas que se mostraram interessadas em apoiar a partilha de carro nos percursos entre a casa e o trabalho, diminuindo as despesas e o impacto no ambiente. Basta fazer um registo no site http://www.carpool.pt/ e aceder ao itinerário que lhe for mais conveniente. Lisboa, Loures, Barreiro e Odivelas já apoiam este projecto que não tem fins lucrativos. O único objectivo é ser um facilitador de vidas e amigo do ambiente. Mas para tal, é preciso quebrar os tabus relacionados com as boleias, coisa que ainda existe por cá.

Ainda vale a pena?


Mais uma semana, mais uma sondagem fresquinha. E à beira dos 34 anos do 25 de Abril, gostaria de saber o que vocês pensam sobre o assunto. Ainda vale a pena comemorar a data da Revolução dos Cravos? Ou já é uma coisa como o 5 de Outubro, quase esquecida da memória colectiva? Um feriado é sempre um feriado, mas o dia em que o povo saíu à rua continua ou não a ter significado junto dos portugueses? É o que se vai ver, durante os próximos sete dias. Sim, apesar de tudo vale a pena; Sim, é feriado e calha à sexta; Não, é preciso outra revolução; Não, a família perdeu tudo em África; Estas são as opções. Vamos lá analisar a nossa História recente. Obrigado.

Viragem à esquerda

Os eleitores decidiram. E não há mais nada a fazer. Depois de uma semana de Eleições Legislativas aqui no blog, eis os resultados oficiais, sem direito a manifestações de protesto ou amuos por parte dos derrotados. A grande vencedora foi a Coligação Democrática Unitária (CDU), que alcançou 37% dos votos. É a demonstração clara do poderio da máquina partidária comunista. Até parece que circularam SMS apelando ao voto... Ou como se costuma dizer: assim se vê a força do PC. Em segundo lugar ficou o Partido Socialista (PS), com 18% dos votos, provando que, afinal, Sócrates está no poder por alguma razão. Há quem tenha votado nele, não foi nenhum milagre. Partido Social Democrata (PSD), Bloco de Esquerda (BE) e Centro Democrático Social - Partido Popular (CDS-PP) ficaram todos empatados. Alcançaram 6% das preferências destes carismáticos eleitores. Foi a mesma percentagem atingida pelos votos em branco e pela abstenção. Quanto a votos nulos, houve 12% de eleitores descontentes que preferiram inutilizar o boletim de voto. É a vida! Obrigado pela participação. Quanto à análise dos resultados, fica para quem o desejar fazer, através dos vossos comentários.

11/04/08

Bons votos

Continuam a decorrer as nossas Eleições Legislativas. Não se acanhem, basta um clique na opção que mais gostarem. Há para todos os gostos e ninguém vai ganhar um ordenado chorudo à custa dos resultados. Isto não é o Parlamento. É apenas para vermos como páram as coisas. Votem até domingo e os resultados estarão disponíveis na próxima segunda-feira. Aqui no blog, somos mais rápidos que a comissão eleitoral do Zimbabwe. E não Zimbabué!

Vamos a isso!


O Sol está de volta. Não há tornados e vendavais que nos afastem do fim-de-semana. E mesmo que chova um bocadinho, nós arranjamos forma de dar a volta à coisa. Cá vão algumas dicas para gozar da melhor forma os dias que se seguem. Aproveitem!

1 - Porto e Arcos de Valdevez recebem, hoje e amanhã, mais uma edição (a 18ª) do Festival Intercéltico. Encontros da Eira, Galandum Galundaina (Portugal), Beoga (Irlanda) e Xosé Manuel Budiño (Galiza) são os convidados de honra. Mais informações em http://www.discantus.pt/

2 - Os The Gift juntaram-se à Orquestra Metropolitana de Lisboa para um concerto especial em Guimarães. É hoje à noite, às 22h, no Centro Cultural Vila Flor, com entrada gratuita.

3 - A música continua com mais uma dupla de destaque. David Fonseca e a novata Rita Red Shoes vão estar amanhã no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com ela a fazer a primeira parte dele. Para eles e para elas, boas razões para ir à Rua das Portas de Santo Antão.

4 - No escurinho do cinema, há um filme que anda a deixar muita gente nervosa. 'REC', é espanhol, realizado por Jaume Balagueró e Paco Plaza, e recebeu o prémio de Melhor Filme no Fantasporto deste ano. Mais um exemplo de como a indústria espanhola do cinema continua a dar cartas. E nós... nada!

5 - O velho lema 'Vá para fora cá dentro' continua actual. Que tal uma ida a Sagres? Bom peixe na mesa, boas paisagens à vista, o sossego que se merece. Boa viagem!

10/04/08

Fogo fátuo


Jacques Rogge é o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) e acaba de pedir aos atletas que não percam a fé e a confiança no movimento olímpico. Dirigindo-se aos 205 líderes dos comités nacionais representados na competição, Rogge assegurou que os Jogos de Pequim vão ser bem organizados. E que a crise da tocha vai ser ultrapassada. Ou seja, tudo irá correr bem, sem boicotes e sem dar grande importância às manifestações pró-Tibete que decorrem em todo o Mundo. "Ficámos tristes com o que aconteceu em Londres e em Paris. Ficámos tristes pelos atletas e pelas pessoas que carregaram a tocha. Ficámos tristes pelas crianças que viram os seus heróis e modelos de exemplo serem apupados", disse o líder do COI.


Esqueceu-se de dizer que tinha ficado triste pelos tibetanos que não têm país, pelos atropelos humanitários na China, pelos dissidentes que são perseguidos, pela falta de liberdade de imprensa, pelo Golias que teima em massacrar o David. Esqueceu-se. Tal como a comunidade internacional se tem esquecido de criticar e sancionar a China. Esqueceu-se. É triste.

CADA UM TEM O QUE MERECE



Última chamada para o Tokyo


Ian Curtis deita cá para fora todas as angústias. Diz que o amor vai deixar-nos separados e a pequena multidão delira com os Joy Division. Entre uma cerveja de garrafa e mais um encontrão de quem quer passar para chegar ao bar, entram em acção os Cure. Há um grupo de betas que descobriram recentemente este refúgio. Dançam como se estivessem na Kapital, maldita a hora em que fechou. Parece que se mudaram todos para aqui. Algumas das caras ainda são as de sempre, as que não se preocupam com o facto de o espaço estar a rebentar pelas costuras. Vêm pela música. Também pela música aliás.


O Quim está à porta. Do lado esquerdo, as prostitutas em cima da caixa de electricidade ali na esquina. Do lado direito, o túnel da caixa de música e o bar de strip escondido sob o toldo branco. Em frente, a máquina de tabaco mais próxima, apesar de se situar na capital da Noruega. Aqui, para lá do balcão de madeira, os mesmos sorrisos de sempre, o cumprimento que se repete de cada vez que se transpõe a porta e se recua para o passado. Os loucos anos 80, dirão alguns. Os 70 e os 90 também o foram, os primeiros deste século continuam a sê-lo. E todos os passados e futuros foram e serão assim, só depende de quem os vive.


O poster dos Xutos não sai da parede, faz parte da mobília da casa. Não há noite em que não cantem. Reza a lenda e a realidade que terão tocado aqui, ao vivo, no final dos anos 70 ou princípio dos 80, quando eram magros, toxicodependentes e loucos. Hoje, só a última característica se mantém, mas com mais moderação. Quem já nada teme ecoa pelas paredes graças ao afinado coro sub-45 que não perde uma oportunidade para mostrar que a memória das letras continua bem viva. A temperatura é cada vez mais alta, caminha-se para as três da manhã e há apenas mais uma hora de viagem garantida.


O senhor João, a alma da casa, não está ali. Está em casa há uns bons meses, mas não há quem não pergunte por ele. Está melhor, vai ficar bom, está a lutar, dizem-me do outro lado do balcão. Manda-lhe um abraço. Está descansado, eu mando. Faz-se um brinde entre duas garrafas, entre duas pessoas que se descobriram ali e não mais se separaram. Pede-se mais uma música, como se estivesse em casa de amigos. Estamos mesmo.


Janis Joplin despede-se. Vai sair de Mercedes Benz. As luzes acendem-se, são quatro da manhã e é já tempo de partir. Imediatamente antes da saída, na parede ao lado do ar condicionado, lá estão eles, os três. São a prova de um tempo que, se não tivesse existido, teria sido uma perda irreparável para a Humanidade. Estão sentados. Mick, um branco no meio de dois pretos, está com pose de menino envergonhado. As mãos sobre as pernas, um sorriso de inocente num corpo cheio de culpa. Peter e Bob ladeiam-no e também eles sorriem. Tenho a certeza que, naquele momento, estavam felizes. Poderiam estar a rebentar de problemas, de dependências. Poderiam estar a viver à margem da lei, a colocar-se em risco, a fazer más opções. Mas naquele momento foram felizes. A foto de Mick Jagger, Peter Tosh e Bob Marley diz tudo. Olho-a uma e outra vez mais antes de sair do Tokyo, no Cais do Sodré, em Lisboa. Era bom que uma vez na vida, pelo menos uma vez na vida, todos pudéssemos ser assim tão felizes. Eu já fui e continuo a sê-lo. E vocês, o que é que têm feito para isso?