Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



17/06/09

Schiuuu

Fernando de Noronha, Brasil

Olha aí, pá! Os miúdos estão todos em exames. Estão a ver se tiram boas notas para passar o ano, chegar à Universidade, sacar o canudo e ir para o desemprego.

Até fizeram as provas nacionais mais fáceis e tudo para que Portugal não fique tão mal classificado em relação à média europeia.

Ontem, no exame de Português, pediram aos alunos para falar da liberdade. Era a parte escrita da prova, tinham que falar da liberdade, do seu significado. Liberdade de escolha, de associação, de pensamento, sexual, de fazer o que lhes dá na gana, sei lá. Os 20 anos que temos de diferença - eu e eles - já me cheira a Generation Gap. Liberdade de sair à noite e chegar tarde? De ter telemóvel? De ter sexo o quanto antes? De experimentar drogas? Oh, tudo isso já é possível sem grande esforço libertário...

A minha liberdade será sempre diferente da deles, nem melhor, nem pior. Só diferente. Mas não sei mesmo o que terão escrito os adolescentes portugueses sobre a liberdade. E tenho bastante curiosidade. Porque, para mim, aos 14 anos, a liberdade não cabia numa folha de papel de um exame nacional.

16/06/09

A marcha dos indignados

Kathmandu, Nepal

Diz a World Food Programme (Programa Mundial de Alimentação) da ONU que a verba da transferência de Cristiano Ronaldo do Manchester United para o Real Madrid seria suficiente para 520 milhões de refeições escolares em todo o mundo. Mais, daria também para alimentar 8,6 milhões de pessoas na Etiópia até ao final de 2009.

Está certo, 94 milhões de euros dariam para tudo isso.

No dia a dia dos mortais, no ir jantar fora, ir ao cinema, comprar DVD, livros, ir beber um copo com os amigos ou estoirar euros na discoteca, quantas bocas poderiam ser alimentadas nos países em vias de desenvolvimento? Alguém pensa que o valor da jantarada de sushi de sábado à noite poderia servir para vacinar meia dúzia de crianças em África? Ou que aquelas promoções de roupa no Chiado dariam para algumas famílias matarem a fome?

Não há muita gente que pense nisso quando gasta dinheiro desnecessariamente nos seus luxos privados e vícios mundanos. A questão é de mentalidade. Se todos fizéssemos um pouco mais, não existiriam três mil milhões de pessoas no planeta a viver com menos de um dólar por dia. E não estaríamos agora aqui a discutir a transferência milionária em tempo de crise.

Quanto ganha um gestor de topo no mundo ocidental? E um político de carreira ou um advogado de sucesso? E um administrador de um banco? Será que os mesmos que apontam o dedo aos 94 milhões de euros alguma vez deram alguma coisa para matar a fome no Mundo? Ou limitam-se aos jantaritos de solidariedade onde se come lagosta para comprar pão e arroz para os outros, os coitadinhos.

É demais, 94 milhões de euros. É verdade. São dez euros por cada habitante de Portugal. Eu estou disposto a dar os meus 10 euros para matar a fome aos etíopes e alimentar as crianças em idade escolar. Há mais gente por aí que queira alinhar ou a demagogia vai voltar a ficar por cima?


Voo ali e já venho

Essaouira, Marrocos

Não tão rápido como desapareceu dos radares, mas quase, o AF 447 está a fazer o seu caminho em direcção ao esquecimento. Já não se abrem Telejornais com ele, as capas dos diários voltaram a outros temas e os 228 mortos já quase não são motivo de conversa no café aqui no fundo da rua. Fui lá comprar cerveja e estavam a falar sobre a Feira do Relógio e a onda de calor. As teorias de conspiração, o sumiço à la Triângulo das Bermudas, os sensores da Airbus, os receios dos pilotos, tudo perdeu importância.

Os 94 milhões de Cristiano Ronaldo, a festa com Paris Hilton ou as explicações do Governador do Banco de Portugal tomaram conta dos acontecimentos. Aquilo que há duas semanas foi espremido até à exaustão, analisado, ponderado, discutido, criticado, esmiuçado e idolatrado em termos informativos não passa agora de uma qualquer notícia numa página interior, já praticamente sem acesso à capa.

É normal, é o tempo do mediatismo. O sangue arrefeceu, está tudo dito, estão todos mortos, não há portugueses - questão essencial para a comunicação social portuguesa em qualquer catástrofe. Como tal, vamos voltar-nos agora para os resultados das eleições no Irão, porque aquilo deve estar mal contado (ganhou o mau da fita) e já há mortos nas ruas. Mas também não se pode perder muito tempo com isso. Afinal, de que valem sete iranianos mortos, ou 70, 700 ou 7000, quando hoje à tarde ou amanhã o Jesus vai ser apresentado na Luz?

15/06/09

Este é o meu jornalismo

Bakhtapur, Nepal

Cansado de encher páginas a metro por meia tuta, nada como resgatar o blog das trevas. Estava perdido, lá no fundo, ultrapassado pelo Gmail e pelo Facebook, mas não trocado pelo Twitter, felizmente. E o blog não gostou. Queixou-se.

Entrou no firmamento da mente e disse-me: "Olha lá, e se te parasses de queixar e fizesses mais qualquer coisa para mudar a tua vida". Mais? "Sim, mais ou pensas que basta dizer mal do jornalismo e das páginas feitas a metro? Faz-te à vida. Não podes escrever tantas vezes quanto queres aquilo que gostas, então volta para aqui." E eu voltei. O blog tinha razão.

Aqui ninguém me chateia. Posso escrever o que bem me apetecer e continuar a tirar retratos à mente. Principalmente à minha. Mas não só.

E assim, cá estou. Sempre positivo, mas mais pessoal. Mais meu. E só com fotos da minha autoria. Espero que gostem.

17/03/09

Não dá para ficar mais tempo calado


«Não se pode resolver (o problema da sida) com a distribuição de preservativos», disse o Papa aos jornalistas a bordo do avião da Alitália que o levará até Yaounde, nos Camarões. Acrescentou que, «pelo contrário, a sua utilização agrava o problema».

DIÁRIO DIGITAL, hoje

O papa Bento XVI, Ratzinger para os mais distraídos, falou pela primeira vez da utilização do preservativo. E isto pouco tempo antes de chegar ao continente mais flagelado pela SIDA.

Com todo o respeito que os católicos me merecem, este senhor é um assassino.

24/12/08

HO-HO-HO





Era uma véspera de Natal como todas as outras. De manhã, Isaías tinha ido dar um mergulho à praia. Maldito mês de Dezembro, anda tudo louco com o calor. Quase três quartos de hora depois de ter saído da rede pendurada no alpendre da sua casa, tinha chegado ao seu pequeno pedaço de Paraíso. Já algumas famílias faziam o piquenique no curto areal. Cervejinha, só estupidamente gelada, como canta o Chico.


Estendeu-se no frágil, desbotado e rasgado pedaço de tecido preto que usava como toalha para a praia. Kanga ou pareo, depende da moda escolhida para baptizar aquilo que não passa de um pedaço de pano. Fechou os olhos para melhor ouvir as ondas de água que não paravam de chegar à pequena lagoa. Os risos dos miúdos que por ali andavam a jogar à bola davam-lhe a atmosfera de Verão que precisava.


Deixou-se dormir, sentiu-se a adormecer e não resistiu. Sonhou com uma tarde solarenga de frio, com os preparativos para a ceia e com as mãos que não deixavam de estar geladas. Cheirou o bacalhau no forno, os vapores do marisco a cozerem na panela. Passou o dedo pela forma de cozinha de onde tinha saído a massa para mais um bolo. Deitou mais uma carta para cima da mesa, uma copa. Depois levantou-se, fez uma festa ao cão e tirou um figo seco recheado com amêndoas de um pequeno pires. Levou-o à boca e babou-se.


Acordou, estavam quase 40 graus. No outro lado do Mundo, o sabor do figo ainda se misturava com a saliva. Esse Natal estava longe. Mas era Natal na mesma.

11/12/08

Vamos a la playa!


Meus caros e minhas caras, até ao próximo dia 21 não vos poderei incomodar com as minhas percepções sobre o mundo e sobre a comunicação social. O trabalho chama por mim.
Para qualquer assunto urgente, procurem-me pelos mares quentes das Caraíbas.
Bom período de pré-Natal para todos vós. Não se esqueçam da crise, poupem nas oferendas e aproveitem a oportunidade de vacas magras para se lembrarem do amor e da amizade ao próximo.
Até já!

03/12/08

Porta pequena


Vicente Moura é o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP). Foi Chefe de Missão em 1984 quando Portugal conquistou a primeira medalha olímpica de ouro através de Carlos Lopes na maratona. Entre 1990 e 1992 foi presidente do COP, saíu e voltou em 1997. Até hoje. O comandante do desporto português nasceu em 1937, tem 71 anos. A idade de reforma em Portugal é aos 65, mas isso não vem ainda ao caso. Se ele fosse competente, poderia continuar no cargo até aos 100 anos.


Mas Vicente Moura não mostrou competência nos Jogos de Pequim. Antes de a Missão portuguesa partir para a China, o líder do COP falou na conquista de cinco medalhas e 60 pontos. Disse que 11 dos atletas até poderiam chegar a uma medalha. Dois atletas voltaram medalhados: Nélson Évora (ouro no triplo salto) e Vanessa Fernandes (prata no triatlo). Vicente Moura prometeu em Agosto que se iria demitir em virtude dos maus resultados. Depois, com a vitória de Nélson Évora, voltou atrás. Manuel Boa de Jesus, chefe de missão em Agosto último, elaborou um relatório da competição que não corresponde à verdade defendida pelos atletas.


E a Comissão de Atletas Olímpicos tomou hoje posição sobre uma provável recandidatura de Vicente Moura ao cargo. Estão contra.


Eis algumas razões, divulgadas hoje, em conferência de imprensa, por Nuno Fernandes, representante dos atletas:


- “O presidente do COP não se tem portado à altura dos atletas. Fomos abandonados quando mais precisávamos de apoio. Gostaríamos que o movimento associativo ouvisse os atletas e encontrasse alternativas. Gostávamos de uma mudança"


- Sobre o caso Marco Fortes (o atleta que referiu que de manhã se estava bem era na caminha e foi convidado a voltar a casa mais cedo): "Teve uma frase infeliz, que foi retirada do contexto e vai ter que aprender com esse erro, mas não se dopou, não agrediu ninguém e não desrespeitou o espírito olímpico e, por isso, nunca, nunca, nunca deveria ter sido expulso"


- “Por que razão um líder que sucessivamente prometeu cinco medalhas e 60 pontos, e falhou redondamente, quer continuar à frente do comité?”


- “Basta dos jogos de compromisso, do contorcionismo federativo e manobras de bastidores. Aceite a derrota e saia se ainda tem honra”


- “É tempo de dar um murro na mesa e pedir às federações que ouçam os atletas. Exigem-nos a excelência, temos que exigir o mesmo aos dirigentes”


Sem o apoio dos atletas olímpicos, restará outra solução a Vicente de Moura senão a de ir para casa escrever as suas memórias?

Sem anos de solidão


O jornal MEIOS & PUBLICIDADE informa hoje na sua edição online que irá realizar-se, esta tarde, um debate sobre os 100 anos do ensino do Jornalismo. O evento vai decorrer no auditório da Fundação Luso-Americana (FLAD), em Lisboa, pelas 18h30. Cristina Ponte, professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Fernando Cascais, director do Cenjor, Adelino Gomes, jornalista e provedor da RDP e Ana Luísa Rodrigues, jornalista da RTP serão os convidados para a discussão sobre o tema da actividade jornalística em Portugal neste século de ensino do jornalismo.


Espero que não se assista a mais um daqueles debates de masturbação deontológica onde se luta contra a subjectividade e se exalta a objectividade para o bem da classe. O jornalismo de hoje não é o mesmo de há 100 anos, nem de há 50 ou de há 10. Está em constante mutação. Principalmente para pior. Neste século do imediato, onde os crimes de sangue e os fait divers são elevados à escala de notícia, vai sobrando pouco espaço para contar histórias, para mostrar realidades, para denunciar situações. E aquilo que é ensinado nas universidades é apenas palha para quem depois terá que se deparar com os acontecimentos do dia a dia numa redacção: auto-censura, filhadaputice entre colegas, lambe-botismo, pressões de lobbies económicos, premiar da mediocridade, baixos salários para quem chega à profissão, apatia do Sindicato dos Jornalistas, o papel quase inútil do Cartão de Jornalista da Comissão da Carteira Profissional, o desprezo pelo trabalho dos estagiários, ... Enfim, pode ser que também isso faça parte do debate de logo à tarde.




02/12/08

Não é uma foto do livro


Para variar um pouco o assunto, não posso deixar de mencionar a nomeação de Hillary Clinton para a equipa de Barack Obama. O presidente indigitado quer a mulher de um antigo líder dos EUA à frente da diplomacia americana. Faz bem. A sua antiga rival nas Primárias do Partido Democrata tem experiência no assunto. E não há melhor forma de mostrar união dentro do partido. Aos poucos, Obama vai fazendo das suas.