Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



25/06/09

Amores com amores se apagam

Annapurna Base Camp, Nepal


Estava para aqui a pensar na importância que as coisas têm e depois deixam de ter.
Como não cheguei a nenhuma conclusão decidi divagar sobre o número que mais gosto: o 23.

23 palavras podem ser suficientes para se fechar um capítulo. Basta juntar-lhes um dois pontos, uma vírgula e dois artigos, por exemplo. E a coisa está feita. Quem o faz, é porque não dá muita importância à coisa, é a melhor maneira: fugir para a frente, tratar como uma doença passageira e voltar a olhar para o espelho e ver apenas aquilo que lhe interessa.

Pois eu dificilmente conseguiria sacudir a poeira com 23 palavras. Gosto do 23, é o meu número, gosto daquela conjugação do 2 e do 3, e não faria isso ao pobre número. Mas estas coincidências acontecem. É a vida.

Na escola era o 23, o 23 aparece-me à frente em muitas situações, gosto de pensar no 23 como uma boa escolha, como um bom sinal. E não é que o foi novamente? Mais uma vez o 23 surge-me como uma demonstração deste grande equilíbrio do Universo. Com 23 matas, com 23 morres. Não é bem assim, mas isto também não é a Bíblia.

O 23 surge quase sempre de onde menos se espera, fruto das combinações, dos números das portas, das matrículas, das vidas. E deixa sinais. Uma vez encontrei um 23 em azulejo numa parede imensa de Praga (está junto à Catedral, num canto da praça, se quiserem confirmar). E hoje vi-o outra vez, escondido e dissimulado.

É apenas um número. Pois é. Mas é meu. E diz-me muito, dá-me muitos sinais. Por acaso, já contaram as letras do título deste post?



Cuidado, tens mail

Oranjestad, Aruba

Ele apaixonou-se por ela. E ela por ele. Foi a típica história de "boy meets girl, girl meets boy". Só que o "boy" é casado. E pior que isso, é político. E ainda para piorar as coisas, é político nos EUA. "Boy" e "girl" trocaram uns emails, falaram do que sentiram, entraram em pormenores pessoais, mas sem ordinarices, e foram descobertos por um jornal norte-americano.

Mark Sanford é o "boy", Governador da Carolina do Sul. Maria, nome fictício - porque o que interessou foi estragar mais uma carreira política com base num caso extra-conjugal - é argentina, de Buenos Aires. Sanford era uma das esperanças republicanas para uma próxima nomeação presidencial, mas tramou-se, como conta a CNN.

Andou a trocar emails com a argentina onde falou de uma "situação de amor impossível e sem esperança". E classificou-a deste modo, nos tais emails a que o jornal The State teve acesso: "Tu tens uma graça particular e uma calma que eu adoro. Tu tens um nível de sofisticação que encaixa com a tua beleza. (...)Podia dizer que tu tens a capacidade de dar magníficos beijos suaves ou que gosto das tuas linhas bronzeadas ou que amo a curva das tuas ancas, (...) no brilho que se apaga da luz da noite - mas, hey, isso já seria entrar em pormenores sexuais..."

O Governador chega mesmo a questionar-se, nestes emails privados a que ninguém deveria ter tido acesso:

"How in the world this lightening strike snuck up on us I am still not quite sure. As I have said to you before I certainly had a special feeling about you from the first time we met, but these feelings were contained and I genuinely enjoyed our special friendship and the comparing of all too many personal notes ..."

Mark Sanford não é um santo. Traíu a mulher com uma moça argentina, trocou uns emails mais íntimos, falou dos seus sentimentos e foi apanhado. Mas e se Mark fosse apenas Mark e não o Governador da Carolina do Sul? Ah, é nos EUA, as coisas lá são diferentes.

E se fosse cá? Cá ainda não chegou a devassa da vida privada dos principais políticos, mas não deve faltar muito. Já se deu o primeiro passo - muito cauteloso - com o namoro do Primeiro-Ministro, mas para quando a descoberta da amante de um ministro ou a homossexualidade não-assumida de um qualquer político da Oposição?


24/06/09

Um abraço ao Copérnico

Deserto de Wadi Rum, Jordânia

Afinal, a Terra não está no centro do Universo.

Às vezes parece que somos nós o ponto mais importante da vida. E vai-se a ver e não é bem assim.
Não é fácil chegar a esta conclusão, digo eu. E a História prova-o: não fosse o polaco Copérnico ter, em 1514, abanado as consciências e dizer que afinal a coisa não era bem assim e ainda hoje estaríamos a pensar que iluminávamos o resto do Universo.

Quase 500 anos depois, ainda há quem pense que Copérnico era um grande aldrabão. E há quem continue a defender que somos nós que temos que ficar parados enquanto todo o Universo gira à nossa volta. Mas quem é que ainda pensa isso?, pergunta novamente a voz do occipital.

Todos nós.
Em determinados momentos da nossa vida, pensamos isso. Pensamos que os outros devem girar sorridentes para nós, que dependem da nossa luz, da nossa disposição, do nosso bem estar. E que os outros podem viver de acordo com as nossas mudanças de órbita. Errado.

No meu sistema solar, todos os planetas olham uns para os outros de igual para igual. Sejam maiores ou menores, com mais ou menos luas, mais quentes ou mais frios, mais inóspitos ou mais acolhedores, todos os planetas têm direito a dar luz para os restantes e receber deles alguma coisa. É como a democracia, mas em bom.

Vota abaixo

Ilhas Galápagos, Equador

Abri o espaço para a nova mensagem e pensei que me apetecia falar das eleições legislativas e autárquicas serem no mesmo dia. Enganei-me.

Eu prefiro que sejam em dias separados, porque uma coisa é votar para a Câmara - ou Cambra, como se diz em português da rua - e outra é votar para o Governo. Porque os autarcas não têm que ser metidos no mesmo saco dos deputados nem uns pagarem pelos erros dos outros. Que grande parvoíce, até parece que os boletins de voto são os mesmos, está a dizer-me aquela voz junto ao occipital.

Não, de facto, não são, mas num país com tamanha iletracia, vai acontecer - com toda a certeza - que milhares de eleitores vão confundir o papel da Cambra com o papel do Governo e votar errado. Ou, para simplificar a coisa, votam igual nos dois porque não lhes apetece pensar muito. E podem também fazer pagar o autarca pelos erros do partido nacional quando o presidente da Cambra ou da Junta até fez um bom trabalho. Agora, poderia colocar aqui um "e vice-versa", mas não estou a ver muitos casos em que a imagem de um partido seja melhor que a de um autarca. Se calhar há, mas não estou mesmo a ver.

Pois então, eu gostaria de ter duas eleições em dias separados. Já sei que me vão atirar com o argumento do despesismo, mas se calhar é um pouco tarde para pensar nisso. Despesismo também é cada partido chegar ao Poder e trocar os nomes dos ministérios e secretarias de Estado e com isso obrigar a uma mudança de papéis oficiais, cartões dos funcionários, envelopes, etiquetas, publicidade institucional, ... Isso cheira-me mais a despesismo e nunca ninguém se lembra de apontar o dedo.

Uma coisa é a Câmara, outra coisa é o Governo.
Dois orgãos, duas eleições, duas campanhas.
A mesma triste e rídicula abstenção.

23/06/09

Entrevista com o vampiro

Jerash, Jordânia

Arrependido?
Claro que não. Foi o que tinha que ser.

Farias a mesma coisa?
Claro que sim. Foi assim que o senti na altura.

E mudarias alguma coisa?
Muita coisa, mas nada que dê para mudar.

Queres ser mais específico?
(Risos) Tenho mesmo que o ser?

Aqui quem faz as perguntas sou eu.
Ok, então não vou ser mais específico. Estou a brincar, mudaria o tempo, o espaço, a forma e o conteúdo. Chega?

Tu é que sabes. Em algum momento acreditaste que poderia resultar?
Sim, acreditei. No momento em que lhe perguntei se queria, nos momentos em que as coisas corriam bem, nos momentos em que fui feliz.

Foram muitos?
Foram alguns.

E maus momentos também houve?
Claro que sim, senão não estava aqui agora. Mas o caminho não se faz por aí, isso está tudo ultrapassado. Mas não esquecido.

Tiras alguma lição de tudo isto?
Claro que sim: o erro faz parte da solução.




22/06/09

O Calimero e a Abelha Maia

Deserto do sal, Tunísia

Três anos de pena suspensa.
Nuno Cardoso, o ex-presidente da Câmara Municipal do Porto, foi hoje condenado por prevaricação, por ter mandado arquivar indevidamente processos de contra-ordenação do Boavista FC. O juíz-presidente, João Amaral, referiu, na leitura do acordão, que existiu "intenção de beneficiar o Boavista", "elevada ilicitude dos factos" e "teia" entre o poder autárquico e os clubes de futebol.

O caso remonta a 2001, quando o autarca perdoou uma coima ao Boavista por construção sem licença. Com este acordão, Cardoso perderia o seu mandato, se estivesse a exercer qualquer cargo público. Mas não está. Por pouco tempo, porque à saída do tribunal, o ex-autarca - agora condenado por prevaricação, relembro - afirmou: "Estou de volta à política". Teve ainda tempo para dizer que está mais preocupado com a justiça divina que com a dos homens.

Três anos de pena suspensa. Cardoso, Avelino, Valentim, Felgueiras, Isaltino...
A vergonha continua dentro de momentos.


Neda na manga

Serra da Estrela, Portugal

Em 1989, na Praça de Tiananmen, as imagens do estudante que enfrentou o carro de combate deixaram marcas profundas. Mostraram a oposição ao regime chinês, a falta de democracia, o atropelo - literal - pelos direitos humanos.

Em 2009, o vídeo de Neda, a mulher iraniana atingida por um tiro no peito no seguimento de uma manifestação em Teerão, é a face visível de uma contestação que não vai ficar por aqui. Ahmadinejad ganhou as eleições, Moussavi contesta o resultado, os clérigos não querem um banho de sangue.

Demasiado tarde, Neda terá morrido enquanto protestava de forma pacífica pelas ruas da capital do Irão. Duas décadas depois de Tiananmen, os atropelos na China continuam. Esperemos que em 2029, outras mulheres iranianas possam exercer livremente os seus direitos.

20/06/09

Tortura infantil

Arusha, Tanzânia

No Parque da Bela Vista, em Lisboa, são esperadas 25 mil pessoas para o maior piquenique da história. O evento é organizado pelo Modelo e Tony Carreira vai lá tocar. Cada bilhete custa cinco euros e os participantes devem levar o farnel de casa. De preferência numa cesta de verga onde também estará uma toalha aos quadrados vermelhos e brancos, talheres, pratos e copos de plástico. Isto não é obrigatório, sou eu a divagar.

Pois então, se tudo correr como previsto, Portugal vai mais uma vez entrar para o Livro Guinness dos Recordes. E desta vez não em virtude do maior bolo-rei do Mundo, da maior concentração de Pais Natal numa cidade ou do maior ajuntamento de mulheres grávidas da História fora da Maternidade Alfredo da Costa.

Deve ser uma tarde engraçada, a de hoje. O Tony a cantar, o mulherio aos gritos, as crianças a jogar à bola, os pais deitados à sombra com a Mini apoiada na barriga e os olhos a fecharem de cansaço. Eu gosto de piqueniques e até há 10 minutos tinha apenas alguma simpatia pelo Livro Guinness dos Recordes. Até tenho dois exemplares de anos diferentes aqui nas estantes que teimo em não arrumar.

Acontece que, há 10 minutos, estive a ler no DN uma notícia sobre Michelito Lagravere, aquele miúdo de 11 anos que é toureiro. O mesmo que foi proibido de actuar no Campo Pequeno pela Comissão de Protecção de Menores, depois de um protesto apresentado por organizações anti-tourada. Estava então a ler o jornal e fiquei a saber que no início deste ano, em Mérida, Michelito matou seis touros num dia porque queria entrar para o Livro Guinness dos Recordes como a criança que mais touros matou em 24 horas. Não li isto bem, pensei. Então o Guinness entra nesta palhaçada?

Não. No Guinness não entram recordes relacionados com a tortura de animais. E fiquei com uma grande simpatia pelo mítico livro. Não aprovam a tortura às mãos de uma criança, mas aceitam um piquenique onde vai cantar o Tony Carreira sob um sol de quase 35 graus num dos bairros mais problemáticos da capital portuguesa. 'Tá certo.


19/06/09

Cheira mal. Foste tu?

Vila do Conde, Portugal

É-me indiferente o autor da notícia, o jornal onde foi publicada ou a miséria social do tema. Este é um excerto de uma peça de um diário nacional português que merece chegar às faculdades onde se ensina jornalismo.

Não pelo brilhantismo ou pela mediocridade da escrita, nem pelo bom ou mau exemplo de informação, mas sim porque este é o tipo de jornalismo que cada vez mais se faz por cá. É a "mexicanização" ou o "abrasileiramento" da notícia-choque, o explorar dos sentimentos, a invasão da privacidade, o vasculhar no excremento. Porque, decidiram algumas pessoas que mandam, é disto que o povo gosta. Talvez tenham razão, há muita gente que gosta de abrandar para ver o acidente.

Eu prefiro mandar vir com os otários que o fazem, apitar para que andem mais rápido e deixem de empatar quem quer fazer alguma coisa de jeito na vida.

Insultos à mãe no funeral dos filhos

Os três irmãos – Diogo, de 12 anos, Tiago, de seis, e Afonso, de apenas dois anos – que morreram no incêndio num prédio devoluto no Pinhal Novo foram ontem sepultados no cemitério de Benavente. A cerimónia fúnebre foi marcada pela divisão familiar e pelos insultos que alguns populares proferiram contra a mãe das crianças, Maria Florinda Valente Alves.

Eram 16h30 quando os três pequenos caixões brancos foram colocados lado a lado à frente do altar na Igreja Matriz de Benavente. Rosa, de 19 anos, uma das irmãs dos menores, estava sentada na primeira fila e chorava convulsivamente, amparada por uma prima. Juliana, de 21 anos, a irmã que estava com as três crianças na fatídica noite, estava na mesma fila mas separada de Rosa por cinco pessoas. A dar-lhe o ombro não estava o namorado, Nuno, porque Florinda pediu que não fosse. Mas estava um irmão de quem a família nunca falou. Afinal eram oito e não sete os filhos de Maria Florinda Alves.

Micael é o mais velho de todos e é filho do mesmo pai de Juliana e de Rosa. "A mãe nunca ligou muito a este filho, mas é muito bom rapaz, talvez o mais certo da família", disse uma vizinha de Florinda, sublinhando que o rapaz casou, tem um filho e seguiu a carreira militar.

Na segunda fila estava a mãe , vestida com uma t-shirt preta. Chorou em silêncio durante toda a cerimónia. O pai, Luciano Ribeiro, estava numa fila do lado direito do altar, sozinho de olhos postos no chão.

O povo falava em surdina, mas não ousou perturbar o sermão do padre. Ouvia-se aqui e ali: "Tenho pena é das crianças" e "ela é que devia estar ali". Quarenta e cinco minutos depois, o cortejo fúnebre saiu em direcção ao cemitério.Foi no momento em que a terra cobriu os caixões – ficaram todos na mesma sepultura comum – que o silêncio terminou. "Agora já podes sair à noite", disse uma mulher contra a mãe. "Como foste capaz de deixar os filhos com a drogada", dizia uma mulher, referindo-se a Juliana. Florinda, Juliana, Rosa e Luciano ouviram tudo sem reacção.

Falta muito para o jantar?

Val Thorens, França

No seguimento daquilo que se poderia fazer em prol da Humanidade com as somas milionárias de transferências de jogadores de futebol e com os trocos dos nossos jantares e saídas à noite, ficam aqui mais umas achegas lidas no DN de hoje:

- "A agência da ONU para a agricultura e a alimentação informou hoje que foi ultrapassado o limiar dos mil milhões de pessoas subalimentadas no mundo"

- "O actual número de pessoas subalimentadas é de 1,02 mil milhões e resulta de um aumento de 100 milhões de pessoas no período de um ano"

- "Todas as pessoas afectadas pela fome vivem em países em desenvolvimento: cerca de 642 milhões na região da Ásia-Pacífico e cerca de 265 milhões na África subsaariana"


A conclusão é: uma em cada seis pessoas no mundo é afectada pela fome. Bom fim-de-semana...