Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



31/07/09

É justo, sim senhor.

Gostei muito do dia de ontem. Foi engraçado.
Deu-me aquela sensação de não saber se aquilo era real ou se simplesmente estava num estado de dormência em que as coisas acontecem sem termos a certeza se são verdade ou mentira.
E antes que pensem noutras coisas, estou a falar de Justiça.

No mesmo dia, duas decisões dos tribunais portugueses fizeram-me duvidar do meu estado de sanidade mental. Fiquei a pensar se estarei ainda no Estado Novo ou se já estamos num Novo Império armado ao moderninho.

Em Felgueiras, a Vossa Senhora de Fátima foi ilibada de todos os crimes. Afinal, os 2,8 milhões "oferecidos" ao FC Felgueiras para pagar ordenados foram, de acordo com o tribunal, utilizados para fins legais. A palhaçada que durava há 10 anos acabou ontem sem que as falcatruas, o saco azul, a fuga para o Brasil ou a mudança de visual da autarca de Felgueiras fossem penalizadas.

No Supremo Tribunal, ficámos a saber que uma mulher vai ser indemnizada por uma companhia de seguros em virtude do acidente de viação do marido. A senhora queixou-se de danos morais devido ao marido ter ficado impotente, o que lhe impede a concretização dos deveres conjugais. Vai receber 50 mil euros.

Nas duas histórias, a hipocrisia.

Na primeira, por não se condenar, pelo menos, a fuga à Justiça portuguesa de Fátima Felgueiras para o Rio de Janeiro. Está criado o precedente. Já nem falo nas outras acusações...

Na segunda, pela americanização da Justiça com esta sentença. Está aberta a época de caça às indemnizações por fumadores que não sabiam o mal que o tabaco fazia, por transeuntes que não sabiam que andar em piso escorregadio pode provocar quedas, por pacientes de dentistas que desconheciam a dor provocada por uma desvitalização de um dente ou por vítimas de acidentes que perderam um dedo e nunca mais vão poder tocar piano, mesmo que nunca o tenham feito.

Gostei mesmo do dia de ontem.

13/07/09

80

Hoje o meu avô faz anos.

E não há assunto mais importante. A gripe A, a crise mundial, os atentados no Iraque, o empate do Benfica, as tricas das autárquicas, os festivais de Verão, as trapaças do Dick Cheney, nada disso me parece interessante para dissertar.

O meu avô faz 80 anos e merece uma festa à maneira. É isso que ele vai ter, mas ainda não sabe.


08/07/09

Português com muito orgulho

Mértola, Portugal

Afinal, o pedido de nacionalidade brasileira por parte de Maria João Pires não é o que parece. Diz a pianista e o seu advogado que a coisa já estava a ser pensada há cerca de três anos, que a vida e os negócios de MJP têm decorrido mais no Brasil que em Portugal e que não tem nada a ver com a difícil situação económica de Belgais.

Parece que o projecto de Escola de Artes não teve o sucesso que se esperava, que faltaram apoios do Estado, mas não só. Ao contrário do que faz quando se senta ao piano, MJP não teve o toque de Midas em Belgais. O projecto falhou, existiram queixas de professores, pais e alunos, como em tantas outras academias, companhias e organizações de índole cultural por este país. Mas Belgais era mais mediático, era de Maria João Pires.

Se MJP quer ser cidadã brasileira bem como portuguesa, está no direito dela. Se José Saramago quer viver em Espanha em vez de Portugal, tem as razões dele, tal como os milhões de portugueses e luso-descendentes que vivem fora de Portugal. Decidiram construir a sua vida fora de Portugal. Desde sempre este foi um país de viajantes, de aventureiros. Uns voltam, outros não. Mas não cuspam no prato onde comeram.

Este pensamento não é meu, mas gosto sempre de o lembrar: se os portugueses que saíram daqui nas últimas décadas se tivessem sujeitado a fazer em Portugal o que andaram a fazer por França, Bélgica, Alemanha, Canadá ou EUA, talvez hoje estivéssemos num patamar diferente de desenvolvimento. Mas não o fizeram, optaram ou foram forçados pelas circunstâncias a emigrar.

Se há coisa que me enerva é o constante desprezo com que muita gente fala do meu país. Não é o melhor país do Mundo para se viver, é certo. Mas é o meu. Com todas as qualidades e defeitos. Comparado com 90% do planeta, Portugal é um paraíso. Por isso, para quê tanta queixa, tanta amargura, tanta azia? Se todos fizermos um pouco mais, isto pode ser ainda melhor do que já é.

06/07/09

20 cêntimos

Rupias nepalesas, Kathmandu


Perdi cinco minutos a fazer as contas, chumbei a Matemática.
O CR9 vai ganhar 560 mil euros por mês, líquidos.
E a TVI estava a frisar que Cristiano gastou 3000 euros por dia no aluguer da casa de férias.
Não é mau, ele ganha 18 mil euros a cada 24 horas...

Vendo bem as coisas até não é muito, dá 20 cêntimos por segundo. Não dá nem para um café.
Mas chega para uma Bubblicious ou para duas Gorilas.

Todas as luzes do Mundo

Shinjuku, Tokyo

Faltam menos de duas horas para Cristiano Ronaldo ser apresentado como jogador do Real Madrid.

Já se sabe dos 94 milhões de euros, das 80 mil pessoas esperadas na apresentação, do impacto mediático do melhor jogador do Mundo em 2008. Contam-se as pessoas presentes na apresentação de Maradona como jogador do Nápoles ou de Kaká, na semana passada no mesmo Santiago Bernabéu.

As televisões estão à porta do estádio do gigante de Madrid, entrevistam as adolescentes na fila para entrar e os rapazes que querem ser como o Ronaldo. É-lhes perguntado o que pensam de Cristiano, se é bonito, se é um bom jogador, se vai ter sucesso na capital espanhola, se vai resistir às tentações da movida e das perfumadas espanholas.

Madrid não é Manchester. Em Espanha, Ronaldo vai ser um homem quase só, sem o "pai" Ferguson a controlar-lhe os passos ou sem os companheiros de equipa mais velhos (Ryan Giggs ou Paul Scholes) a influenciar o seu estilo de vida.

Cristiano Ronaldo vai estar por sua conta e risco, acompanhado pela mãe, pelas irmãs, pelos amigos, pelo ex-cunhado, pelo empresário e pela equipa que com ele trabalha. Cristiano tem muitos inimigos: os adversários, os invejosos, as caça-fortunas, os papparazis, as ex-namoradas, os críticos das suas actuações pela selecção nacional, os adeptos dos outros clubes que não o Real Madrid. A lista continua, cresce todos os dias. E Cristiano Ronaldo é o único culpado disso.

Dentro de campo é o melhor jogador da actualidade, o mais mediático. Esse mérito ninguém lhe tira. Mas hoje em dia, o futebol é um fenómeno global, uma montra e dos seus praticantes querem-se exemplos para a sociedade. Fora do campo, Ronaldo não é um bom exemplo. Infelizmente para ele.

É arrogante como Mourinho, mas não tão inteligente como o treinador português.
É o sonho dos publicitários como Beckham, mas sem a estrutura mental - já de si fraquinha - do jogador inglês.
É excelente jogador como Kaká ou Messi, mas sem a humildade dos dois astros sul-americanos.

É Cristiano, o miúdo da Madeira a quem muito se desculpa por ter crescido num meio desfavorecido, numa família problemática, esquecendo-se que saiu de casa dos pais aos 11 anos e já viveu mais de metade da sua vida fora dos tais problemas familiares.

CR7 ou CR9 ou CR10 é uma imagem de marca, um ícone onde a humildade não abunda. Os seus fãs vestem-se como ele, querem ser como ele, pensam em dinheiro como ele. O futebol no século XXI é apenas o reflexo da sociedade em que vivemos. Sem valores, a não ser os da conta bancária.

05/07/09

O mundo volta à normalidade

Hallstat, Áustria

A mala continua aberta no chão do quarto, à espera da próxima viagem, da próxima partida. Mais uma semana em que os calções de banho não vão sair da bagagem. As fotos penduradas na parede continuam a cair uma a uma, por força do vento e do calor. Ou da fraca qualidade da matéria azul que as prende à tinta branca.

A cama continua por fazer, o monte de roupa com casacos de malha polar e calças de bombazine continua por arrumar, o Inverno está longe, há tempo. No chão do escritório, a papelada de outras viagens, as bugigangas de mil recordações, continuam à espera de espaço na prateleira.

Os livros na estante ainda não têm o seu lugar definido. Continuam amontoados como quando saíram dos caixotes. Gosto de os ver assim, ordenados de forma anárquica, se tal for possível. Parece que o tempo não passa. Mas é mentira. O mundo continuou a rodar, apesar da breve e crua pausa para compromissos sentimentais.

Roger Federer voltou a ganhar Wimbledon e tornou-se o mais bem sucedido tenista de sempre no tempo dos Grand Slam. Acabou de conquistar o 15º torneio e ultrapassou Pete Sampras na lista dos mais vencedores. É pena, gosto do Sampras. Federer volta amanhã a ser número um do Mundo.

Os livros vão continuar anárquicos na estante, as fotografias vão continuar a cair, o monte de roupa vai continuar ali. A vida volta à normalidade, às angústias, aos stresses de sempre. Mas Federer sabe que nada vai ser igual quando Nadal estiver de volta. E eu também sei que tudo mudou. Menos os livros, as fotos e o monte de roupa.

28/06/09

Aly ainda há esperança

Hoje, a Guiné Bissau está a ir a votos.
Aquele que tem demonstrado ser o mais problemático de todos os PALOP procura uma transição para democracia. Mas não vai ser simples. Nada simples.

Os guineenses estão à espera de um milagre num Estado que está a ficar na mão dos narcotraficantes. Os resultados oficiais só serão conhecidos dentro de uma semana, na melhor das hipóteses.

Para não perderem pitada, sigam o blog: http://ditaduradoconsenso.blogspot.com/
É da responsabilidade do jornalista e ex-candidato à presidência da Guiné Bissau, António Aly Silva Foi nesse blog que Aly mostrou, sem censura, o que se passou aquando do assassinato de Nino Vieira.

27/06/09

Viva a verdade desportiva

Arusha, Tanzânia

Fernando Mendes é um antigo jogador de futebol, o único que representou os cinco clubes campeões nacionais.

Não é uma figura simpática, nem tem que o ser. Dentro de campo, ficou conhecido pela agressividade e entrega total. Fora dele, tornou-se também reconhecido pelas declarações polémicas. Fernando Mendes decidiu lançar um livro, juntamente com Luís Aguilar, ao qual chamou 'Jogo Sujo', da editora Livros de Hoje.

O site MaisFutebol publicou hoje alguns excertos. O antigo defesa assume com todas as letras o consumo de doping ao longo da sua carreira e diz que essa era uma prática corrente em determinado clube.

Pelas declarações percebe-se que, quem quiser actuar, vai descobrir facilmente a que clube se refere Fernando Mendes. Mas também neste caso isto vai dar em nada. É sempre assim no futebol português.

Aqui estão alguns excertos de 'Jogo Sujo'. Cada um que tire as suas conclusões.

«Em determinado período da minha carreira cheguei a um clube que tinha uma grande equipa, um belíssimo treinador e um presidente carismático. Para além destas qualidades, existiram outros ingredientes que facilitaram o nosso percurso vitorioso. Devo dizer que antes de ir para este clube nunca tinha tido qualquer experiência com doping (pelo menos conscientemente)»

«Os incentivos para correr eram sempre apresentados pelo massagista. Passado pouco tempo de estar no clube, ele aproximou-se de mim, e de outros novos jogadores (...) Disse-me claramente que aquilo que ia dar-me era doping, embora nunca tivesse falado de eventuais efeitos secundários. (...)

«Em alguns clubes onde joguei tomei Pervitin, Centramina, Ozotine, cafeína, entre muitas outras coisas das quais nunca soube o nome»

«Lembro-me de um jogo das competições europeias contra uma equipa que tinha três campeões do mundo no seu plantel. Um deles era um poderoso avançado no jogo aéreo. (...) Apanhei-o várias vezes no meu terreno de acção. Ele era um armário, com um tremendo poder de impulsão. Mas nesse dia eu saltei que nem um louco e ganhei-lhe quase todas as bolas de cabeça (...) O meu segredo: uma pequena vacina, do tamanho de meia unha, chamada Pervitin»

«Em certos treinos víamos um ou dois juniores que apareciam para treinar connosco. Esses juniores não estavam ali porque eram muito bons ou porque tinham de ganhar experiência. Estavam ali para servirem de cobaias a novas dosagens. Um elemento do corpo clínico dava cápsulas ou injecções com composições ilegais a miúdos dos juniores (...) Diziam-lhes que eram vitaminas e que a urina era para controlo interno»

«Se um jogo fosse ao domingo, o nosso médico sabia na sexta ou no sábado quais as partidas que iriam estar sob a tutela do controlo antidoping. Mal tinha acesso à informação, avisava todo o plantel e o dia de jogo acabava por ser directamente influenciado por essa dica»

Para os mais desatentos, cá fica a lista de clubes representados por Fernando Mendes e as respectivas épocas, com o agradecimento ao site www.zerozero.pt

2008/09PortugalCO Montijo
2007/08PortugalSão Manços
2006/07PortugalSão Marcos
2005/06PortugalSão Marcos
2004/05PortugalMontijo
2001/02PortugalV. Setúbal
2000/01PortugalV. Setúbal
1999/00PortugalBelenenses
1998/99PortugalFC Porto
1997/98PortugalFC Porto
1996/97PortugalFC Porto
1995/96PortugalBelenenses
1994/95PortugalBoavista
1993/94PortugalEst. Amadora
1992/93PortugalBenfica
1991/92PortugalBoavista
1990/91PortugalBenfica
1989/90PortugalBenfica
1988/89PortugalSporting
1987/88PortugalSporting
1986/87PortugalSporting
1985/86PortugalSporting
1984/85PortugalSporting

26/06/09

Será?

Xanana Gusmão poderá estar envolvido num caso de corrupção.

Hã? Não me parece, foi a primeira reacção. Mas deixa lá ver o que estão a dizer: "Em causa está um contrato, no valor de 3,5 milhões de dólares (cerca de 2,4 milhões de euros), que Xanana Gusmão assinou com a empresa Prima Food, que venceu um concurso internacional para fornecimento de arroz e que tem entre os accionistas mais importantes Zenilda Gusmão, filha mais velha do chefe do Governo timorense."

Se isto for verdade, há que ser honesto: é uma grande desilusão. Mas vamos esperar antes de espetar já as cruzes no homem.


The man in the mirror

O miúdo que nunca chegou a sê-lo morreu há poucas horas em Los Angeles.

E a imagem que vou guardar não é a do homem de negócios falido, do preto com pele branca, do alegado abusador de crianças, do paranóico das cirurgias plásticas ou do pai pouco extremoso que pendura o filho da janela. Foi tudo isso, é certo, mas prefiro guardar aquela imagem do miúdo dos Jackson 5 que comandava os irmãos mais velhos e sorria para a câmara enquanto dançava como só ele o poderia fazer vestido com as roupas coloridas da época.

A carapinha farta dos anos 70, o rancho de Neverland, o 'moonwalking', os sapatos pretos com as meias brancas para o efeito do passo de dança ser ainda mais visual, o primeiro negro a passar na MTV, os 700 milhões de discos vendidos, o videoclip do 'Black and White' ou as campanhas de angariação de fundos para causas humanitárias são apenas momentos, mas eu prefiro guardar os sons que ainda estão nos discos cá em casa.

Michael Jackson morreu com a mesma idade da editora que transformou o panorama musical no mundo, a Motown. Juntos gravaram 18 álbuns. E também há uma música antes e depois dele.