Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



12/01/10

Espécies ameaçadas

Pirenópolis, Brasil


Começa hoje a ser comemorado o Ano Internacional da Biodiversidade. Mas não há muito para festejar. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, das 47 677 espécies vegetais e animais identificadas no planeta, 17 291 estão ameaçadas de extinção. Entre elas contam-se o gato pescador de Java e Sumatra, a rã de orelhas negras de Madagáscar e a libélula gigante dos Camarões. A preocupação prende-se também com o lagarto de Panay, Filipinas e a zebra de Grévy, que pode ser encontrada na Etiópia, como pode ser comprovado no site do jornal francês Libération.

Da lista não constam os habitantes humanos de Java e Sumatra que vivem com menos de um dólar por dia, as crianças prostitutas exploradas pelos turistas franceses em Madagáscar, os trabalhadores em regime de quase escravatura dos Camarões, as centenas de camponeses filipinos que vendem um dos rins para sobreviver ou as crianças subnutridas da Etiópia.

Não estão na lista, mas era bom que fossem cada vez em menor número.

08/01/10

Cale-se para sempre

Quarto de hotel em Thorshavn, Ilhas Faroé


Nas últimas Legislativas, foram eleitos os representantes dos portugueses na Assembleia da República.

Dos programas que foram a votos, partidos houve que fizeram referência ao desejo de aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Dos mesmos programas faziam parte outras questões fracturantes nas áreas da Educação, da Economia ou da Segurança Social. Bastava lê-los com atenção para saber o que cada um dos partidos (PS, PSD, CDS-PP, BE e PCP) tinha em mente para esta legislatura.

Hoje, o casamento homossexual está em debate no Parlamento. Como é sempre bom em democracia, há vozes contra e vozes a favor. Entre aqueles que não concordam com a união de papel passado entre pessoas do mesmo sexo, existem os que querem referendar o direito de os homossexuais casarem. Querem ouvir os portugueses sobre este assunto.

Os portugueses já foram ouvidos. Aconteceu nas Legislativas. Deram a maior parte dos votos aos partidos que aprovam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A decisão passa agora pelos nossos representantes na Assembleia da República. Convém que, de vez em quando, eles também façam alguma coisa e não se demitam das suas funções. Na teoria, foi para isso que foram eleitos.

06/01/10

Bonito serviço

Chapada dos Veadeiros, Brasil

Ironia.

Diz o dicionário da Porto Editora que se trata de uma "forma de humor que consiste em dizer o contrário daquilo que se pretende dar a entender". A mesma fonte fala de uma "figura de estilo que veicula um significado contrário daquele que deriva da interpretação literal do enunciado". Caracteriza-a também como "sarcasmo" ou "zombaria".

Abuso frequentemente do uso desta forma de comunicação. Faz parte do pacote, vem de série. Não é um extra que pode ou não ser adquirido quando se compra o produto.

Muitas vezes isso é um problema. Ou melhor, durante a fase de adaptação, a coisa aguenta-se, até se acha alguma graça. Mas com o uso repetido, a ironia cansa. Torna-se difícil de identificar.

Frequentemente, aquilo que parece não é. E vice-versa. A ironia pode arrancar muitos sorrisos, mas também pode não o fazer. Quando assim é, transforma-se numa arma contra o atirador. E pior do que atirar ao lado, só mesmo o cartucho rebentar na cara. A pólvora leva tempo a sair. Entranha-se.


Coração de papel

Aeroporto para OVNIs, Alto Paraíso, Brasil


Pelo segundo dia consecutivo, o jornal francês Le Monde não chegou às bancas.
O motivo é a greve dos funcionários da publicação ligados à impressão. Reivindicam, como é quase sempre o caso em situações de greve, melhores condições profissionais.
A direcção do jornal disponibiliza gratuitamente toda a edição na sua versão online.

Os amantes da edição impressa, grupo em que me incluo, ficam a perder, mas a grande fatia de leitores que recorrem à Internet não sentem sequer a diferença. O futuro tem destas coisas, está a relativizar o impacto do papel.

Chegará o dia em que vai ser um bem de luxo. Não só pela escassez da matéria-prima e pela preservação das árvores, mas também pelas exigências de uma cidade evoluída tecnologicamente. Têm dúvidas? Também os E-books se vendem cada vez mais.

Gosto de ficar com as pontas dos dedos sujas quando folheio um jornal e recortar notícias que me interessam.
Dá-me gozo dobrar as páginas dos livros, fazer apontamentos e sublinhar frases que considero importantes.

De jornais e livros em formato digital não consigo tirar o mesmo gozo, mas há uns anos também não gostava de inventar textos sem ser com caneta e papel e hoje não me vejo a fazê-lo de outra forma que não através de um computador.

05/01/10

200 mil

Essaouira, Marrocos, Junho de 2008

Onze anos e três meses passam num instante.
Levam mil metros a recordar.

Tirando a família e três amigos, esta é a minha relação mais estável e duradoura de sempre. A explicação é simples: a outra parte não se cansa de mim, não me deixa ficar mal e não espera que eu seja algo que nunca fui. Em contrapartida, eu pouco exijo, não lhe critico os defeitos e não quero que seja algo que nunca foi.

Começámos em Setembro de 1998. Estava calor. Fui apanhado de surpresa pela forma como tudo foi tão rápido. Adaptámo-nos como almas gémeas. Assim é quando a paixão manda mais que o amor. Isto depois passa, lembro-me de ter pensado. Mas não. Não passou. Mesmo onze anos e três meses depois, continuo a gostar de cada marca, de cada momento, de cada recordação. Os momentos maus foram poucos, muito poucos, daqueles que nem chegam para contar.

Fomos a Marrocos sem mapa na mão e sem nunca lá termos ido antes. Percorremos a Europa à descoberta e conhecemos Portugal como ninguém. A areia da praia e a terra do campo serviram-nos para irmos mais longe, para nos conhecermos melhor. Mesmo quando entrámos por caminhos sem saída, soubemos dar a volta por cima. Assim se faz uma relação, não é?

Na noite do Dia de Natal, passei mil metros a recordar o que fizemos e onde fomos, como lá chegámos e o que somos. Fizemos 200 mil quilómetros juntos. Não me deixaste ficar mal. E espero que nunca o tenha feito.

Venham mais 200 mil quilómetros, onze anos e três meses.

23/11/09

Está quase...

Pasaia, Donostia, Euskadi


Lamento o silêncio, mas há momentos em que não é possível conciliar tudo.
Este é um deles.
Dentro de dias, as novidades virão sob a forma de livro, uma boa sugestão para o Natal que se aproxima, se me permitem puxar a brasa à sardinha.

Respiro fundo e volto a mergulhar no teclado.
Obrigado pela paciência.

Até já!

04/11/09

Dom Manuel, o Clemente

Compreendo a posição do Bispo do Porto sobre os casamentos homossexuais.

Compreendo quando D. Manuel Clemente defende um referendo, apesar de o PS querer aprovar a coisa de forma directa na AR.

Compreendo que ele veja esse mecanismo da democracia como "uma possibilidade verdadeiramente admissível".

Compreendo que os casamentos entre pessoas do mesmo sexo devam ser debatidos, "sem pressas".

Compreendo quando ele diz que o casamento deste género tem "outro significado histórico, é realmente outra coisa".

Até consigo compreender quando o Bispo do Porto fala na "possível geração de filhos e a sua educação" como objectivo do contrato nupcial.

Mas acima de tudo, compreendo D. Manuel Clemente quando ele se refere à necessidade de "uma reflexão mais profunda da sociedade".

Se eu fosse homossexual e, de repente, se abrisse a possibilidade de poder casar livremente com a pessoa que eu quisesse e que me quisesse, também apelaria a uma reflexão.

30/10/09

Um balão chamado desejo

Ilhas Galápagos, Equador


Se um balão nunca deixasse de subir, onde iria parar?

Retiremos da equação todas as condicionantes físicas. Imaginemos um balão a subir no ar, sem parar. Haverá um fim? Existirá uma altura em que bate no tecto e daí não passa?

O universo é infinito, ele poderá subir sempre. Esta parece ser a resposta mais correcta, mais científica, mais aceitável. E nem precisaríamos de discutir mais o assunto, mas o nosso cérebro pode ir mais longe. Deve ir mais longe, tem que ir mais longe, mais acima.

E mais para trás. Como no caso da vida. Se tudo começou com uma célula e a vida é aquilo que conhecemos hoje - bendito Darwin! - o que existia antes de essa célula se ter formado? Quem ou o quê fabricou essa célula? Pode ter sido um acaso da física, pode ter sido uma entidade divina, pode ter sido uma experiência que correu bem. Pode ser tanta coisa...

É aí que se entra na área mágica do cérebro humano, quando já não se consegue idealizar mais nada para trás. Nem mais para cima, como no caso do balão. Essa ginástica mental, esse exercício de superação dá-me adrenalina. Gosto de chegar a esse zona que não sei caracterizar, em que ando às apalpadelas a tentar agarrar-me a qualquer coisa. De cada vez que lá vou, sinto que fui um pouco mais longe, que bati mais um recorde pessoal.

Não é apenas a resposta final que me motiva. O caminho para lá chegar é que me dá gozo.

28/10/09

Angolagate e Gaydamak


Li ontem no Público que "um tribunal de Paris condenou hoje a seis anos de detenção os principais acusados no processo Angolagate, um caso de venda de armas a Angola em meados dos anos 90."

Fiquei a saber que "o francês Pierre Falcone e o israelita de origem russa Arcadi Gaydamak foram condenados a seis anos de detenção. (...) Pierre Falcone foi condenado por tráfico de influências e comércio de armas e o tribunal ordenou a sua detenção imediata, sublinhou a AFP. Gaydamak, o grande ausente neste processo apesar de já ter sido emitido um mandado de detenção contra ele, está na Rússia e foi também condenado por comércio de armas e tráfico de influências. Tanto Falcone como Gaydamak deverão agora apresentar recurso, tal como anunciaram os advogados."

Tudo remonta ao período entre 1993 e 1998, quando os dois foram acusados de vender armas a Angola, "provenientes do antigo bloco soviético, quando o país estava em guerra civil, sem autorização do Estado francês. Charles Pasqua era então ministro do Interior (hoje é senador) e foi condenado a três anos de detenção, dois deles com pena suspensa, e 100 mil euros de multa por tráfico de influências, mas o advogado já anunciou que vai apresentar recurso."

E lembrei-me logo do perfil de Gaydamak que publiquei em Maio de 2006 na revista NS - Notícias Sábado. Vale a pena recordar a história do milionário israelita nascido em Moscovo.


Uma mão lava a outra

Tráfico de armas, droga, influências e diamantes. Proprietário de jornais, clubes desportivos e minas de fosfatos. Multimilionário e perseguido pela Justiça, eis Gaydamak.

Há 11 anos, Arcadi juntou-se ao amigo Pierre e resolveram ganhar algum dinheiro. Forneceram ao estado angolano um carregamento de armas soviéticas no valor de 500 milhões de dólares. Um quinto do valor, alegadamente proveniente dos lucros da companhia petrolífera angolana Sonangol, foi para o seu bolso, era a comissão pelo negócio. Arcadi tem por último nome Gaydamak e defende-se dizendo que tudo não passou de uma transacção comercial entre dois países, Angola e Rússia, mediada em França pelo banco do qual é proprietário. O amigo é Pierre Falcone, empresário com ligações perigosas a Angola, Portugal, França e Brasil. Ambos juram inocência perante a acusação de tráfico de armas e ameaçam processar judicialmente quem disser o contrário. Apesar dos inúmeros problemas com a Justiça, Gaydamak acabou por ser condecorado pelo estado francês com a Ordem Nacional de Mérito. Por outras razões, é certo. O empresário israelita – apesar de portador de passaporte de três outros países – prossegue agora a sua saga milionária, envolvendo-se em negócios de diamantes, petróleo, comunicação social e desporto. É proprietário de jornais, um clube de futebol, outro de basquetebol e tem uma fortuna estimada em mais de três mil milhões de dólares. Mas afinal, de onde vem este homem que pagou em dinheiro vivo 15% da dívida externa angolana à Rússia (no valor de seis mil milhões de dólares), é conselheiro particular de José Eduardo dos Santos, fez um donativo generoso para as vítimas do 11 de Setembro e outro para o exército israelita?

Arcadi Gaydamak, Ari Barlev de nome hebreu, tem duas histórias de vida: a que é contada e difundida pelo próprio e a que se vai sabendo pelas marcas que foi deixando pelo mundo. Vamos à oficial, a autorizada, aquela que foi negociada com um jornalista da cadeia francesa de televisão TF1. Nasceu em Moscovo em 1952, chegou a França com 19 anos, respondendo a um anúncio para pintor de prédios. Passou a tradutor e tomou parte nos acordos de negociação franco-russos sobre o comércio de gás. Diz que entrou no mundo dos negócios através do circo. Eram necessárias empresas de transportes para fazer movimentar as companhias circenses e ele criou-as. Em São Petersburgo, trabalhou nas docas e conheceu as pessoas certas, já que formou uma rede de empresas de segurança com equipas especializadas. Daí a movimentar-se nas altas esferas foi um pequeno passo. Uma verdadeira história de sucesso, portanto.

Agora, a outra versão, a que ele dispensaria: Local e ano de nascimento coincidem. Na adolescência, chega a Israel e instala-se no kibbutz Beit-Hachita. Muda-se para Haifa e encontra trabalho no porto da cidade israelita. Apanha um navio e desembarca em França aos 20 anos. Segue-se um rol de profissões e actividades que terá desempenhado nos anos que se seguiram: operário naval, tradutor e coleccionador de problemas com as Finanças. Depois da queda do Muro de Berlim, tal como tantos outros empresários russos, Gaydamak começa a tomar parte em negócios internacionais ligados ao gás, petróleo, helicópteros e armamento. Hoje, a sua fortuna é mantida graças às minas de fosfato no Cazaquistão, à criação avícola e ao mercado imobiliário na Rússia. Sem contar com a rede de bancos da qual é accionista, a UBS, e o semanário Moscow News. Em negociação está a compra do jornal francês France Soir. A par de tudo isto, este israelita que pode ser anunciado como angolano, canadiano ou russo – graças à diversidade de passaportes de que é portador - carrega uma série de acusações às costas: contrabando de armas em Angola e no Afeganistão, treino de forças paramilitares, tráfico de droga, envolvimento no já referido Angolagate (tornado público em 2000 e do qual também fez parte Jean-Christophe Mitterrand, filho do antigo Presidente da República francesa), fuga ao fisco, especulação imobiliária, branqueamento de capitais e ligações ou máfia russa.

Para manter o seu status e não ir parar à prisão, Gaydamak socorre-se dos melhores advogados que o dinheiro pode pagar e refugia-se numa série de estratagemas e relações perigosas que levam à loucura os seus acusadores. A caridade é um dos instrumentos. As doações que tem feito ao exército israelita e a garantia de emprego para antigos líderes da Mossad (os Serviços Secretos de Israel) permitem-lhe estar seguro no país e não ser enviado para França ou para a Suiça, onde tem mandatos de captura em seu nome. É em Israel que executa algumas das suas ‘obras sociais’. Exemplos disso são a compra de 100% das acções do clube de futebol Beitar de Jerusalém (por 11 milhões de euros), bem como da equipa de basquetebol da mesma cidade, o Hapoel. Outra prova do seu ‘altruísmo’ ocorreu em 1995 quando Arcadi foi fundamental na libertação de dois pilotos franceses capturados pelo exército sérvio na Bósnia. Situação semelhante ocorreria três anos depois na Rússia, dessa vez com o exército tchecheno. E novamente Gaydamak conseguiria a libertação dos prisioneiros franceses. Como? Conhecimentos. Pelas intervenções foi condecorado pelo Estado francês, o mesmo que agora o persegue por tráfico de armas e evasão fiscal – mais de 500 milhões de euros. Gaydamak assume-se como um “homem sem estudos” que conseguiu a sua fortuna através da “sorte”. Sobre as explicações à justiça, Arcadi diz-se “pronto para regressar a França”, que seria “vantajoso explicar-se em tribunal. Mas apenas quando for escolhido outro juiz para o caso”. É que o actual, Philippe Courroye, “manipula a comunicação social contra mim”.

in NS - Notícias Sábado, Maio de 2006

26/10/09

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A lista destas corajosas personalidades está mesmo aqui ao lado.