Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



05/06/11

Contas feitas

Já falta pouco para ser a sério, mas a votação que decorreu durante esta semana no Jornalismo Positivo já deu frutos.

Desde já, aqui fica o agradecimento aos 46 "eleitores" que se deram ao trabalho de deixar a sua preferência nestas Legislativas que valem o que valem.

E agora, eis os resultados. Pode ser que alguns batam certo com o que se vai passar mais logo. Outros estarão muito longe, mas o objectivo foi cumprido: chamar a atenção para um dever cívico num país onde um em cada três portugueses costuma ficar em casa quando chega a hora de fazer ouvir a sua voz através do voto.

Resultados:

PPD/PSD.....  30% (14 votos)

CDU ...........  19% (9 votos)

CDS-PP ...... 13% (6 votos)

PS ...............  8% (4 votos)

BE ................  6% (3 votos)

MEP .............  4% (2 votos)

PCTP/MRPP.  2% (1 voto)

PNR .............  2% (1 voto)

Em Branco .... 10% (5 votos)

Nulos ............ 2% (1 voto)



23/05/11

Sondagem que vale o que vale

No próximo 5 de Junho, os portugueses vão a votos.

Mais do que encontrar culpados ou salvadores, estas Legislativas devem servir para mostrar que os cidadãos ainda se preocupam. Votar, mais do que um direito, é um dever. Nem que seja para honrar aqueles que, antes de nós, não o puderam fazer de forma livre durante décadas.

O que vos peço é simples.
Escolham a vossa preferência na barra aqui ao lado e votem.
A sondagem de opinião vai estar disponível até às 12h de sexta-feira, 3 de Junho.
Os resultados estarão disponíveis logo a seguir.

Em jeito de recordação, e para que possam comparar com o que se irá passar na noite eleitoral e entender quem ganhou e quem perdeu, aqui ficam os resultados das Legislativas de 27 de Setembro de 2009 com percentagens, número de votos, de mandatos no Parlamento, brancos, nulos e afluência.

Obrigado.

LEGISLATIVAS 2009

PS: 36,55 % - 2 077 695 votos - 97 Deputados

PPD/PSD:  29,11% - 1 654 777 votos - 81 Deputados

CDS-PP: 10,43% - 592 997 votos - 21 Deputados

BE: 9,82% -  558 062 votos - 16 Deputados

CDU: 7,86% - 446 994 votos - 15 Deputados

PCTP-MRPP: 0,93% - 52 784 votos - 0 Deputados

MEP: 0,45% - 25 475 votos - 0 Deputados

PND: 0,38% - 21 476 votos - 0 Deputados

MMS: 0,29% - 16 616 votos - 0 Deputados

PPM: 0,27% - 15 090 votos - 0 Deputados

MPT-PH: 0,22% - 12 307 votos - 0 Deputados

PNR: 0,20% - 11 628 votos - 0 Deputados

PPV: 0,15% - 8 533 votos - 0 Deputados

PTP: 0,08% - 4 789 votos - 0 Deputados

POUS: 0,08% - 4 320 votos - 0 Deputados

MPT: 0,06% - 3 240 votos - 0 Deputados

Em Branco: 1,74% - 99 161 votos

Nulos: 1,37% - 78 023 votos

Afluência: 59,74% - 5 683 967 votantes

Inscritos: 9 514 322



21/03/11

Exodus

                                                 A caminho do Monte Zion, Jamaica, Março 2011

Jimmy conduzia a carrinha a uma velocidade aceitável. Desviava-se dos buracos na estrada enquanto comíamos os quilómetros entre Ocho Rios e Nine Mile. "Em Portugal também há estradas assim?", perguntou.
Há. Não tantas como na Jamaica, mas também há.

Jimmy era professor de Educação Física. Dava aulas a crianças do quinto ano, "aquela idade em que começam a pensar por eles e isso dava-me um grande prazer".
E então, porque foi que desististe?
"O ordenado de professor não dava para levar a vida que quero". Eram quinhentos dólares americanos por mês. O ordenado mínimo no país ronda os cinquenta.
O que é que um jamaicano pode comprar com um dólar?
"Um refrigerante e um pastel de carne... duas embalagens de arroz".

Os quilómetros passavam a boa velocidade, tal como os temas da conversa: o amor incondicional de um pai por uma filha, a família de professores, a extracção de alumínio das serras jamaicanas, o facto de não existirem McDonald's na ilha porque o governo fez finca-pé para que a carne dos famosos hambúrgueres fosse exclusivamente jamaicana e a multinacional recusou e Bob Marley.

Claro. A hora e meia de viagem tinha por objectivo ver o local onde nasceu e está sepultado Bob Marley.
Por 19 dólares, podem descobrir-se recantos da vida do maior embaixador do país.

Descalços, demos a volta ao pequeno mausoléu onde o cheiro a marijuana não se estranha e fizemos a foto da praxe junto à cama de solteiro do rei do reggae. Essa mesmo, a do Is This Love, "we'll share the shelter of my single bed". Foi bom.

Jimmy é filho de um polícia. Quer voltar a ser professor. Nada lhe dá mais prazer. Tem família nos EUA e convites para ir para lá trabalhar. Não quer. Quer fazer a diferença no seu país. "A Jamaica é muito mais que Bob Marley. E eu gosto muito dele e da música. Mas é muito mais que isso!"

Pois é.

27/01/11

Onde é que acaba o jornalista e começo eu?

Há pouco mais de 10 anos, vivi uma das experiências mais marcantes da minha curta carreira de jornalista.
Ao serviço do jornal O Independente fui destacado - com muita vontade minha - para cobrir as operações de busca e salvamento de Maria João Pinto, professora de Braga desaparecida nos Picos da Europa, Espanha. Era o final de Agosto de 2001.

Nada. Não havia sinal da senhora. Adepta do montanhismo, tinha ido com o marido e um grupo de outras pessoas para os Picos da Europa. O trekking dava os primeiros passos mediáticos em Portugal. Maria João e o marido estavam num refúgio de montanha a mais de dois mil metros de altitude. A dado momento ela saiu para dar um passeio à volta do refúgio, caiu um denso nevoeiro e terá perdido a noção do espaço e das distância. Já tinham passado quatro dias e não havia meio de a encontrar.

Saímos de Lisboa, o fotógrafo João Pedro Branco e eu, na companhia de um amigo do casal que nos tinha chamado à atenção para esta história. Voámos para Oviedo e dai seguimos de automóvel até ao parque de campismo de Cangas de Onis, a base do acampamento do grupo da montanhista. Montámos a tenda, metemos a mochila às costas - o João com o peso suplementar do material fotográfico - e atacámos a montanha para nos juntarmos ao grupo de buscas. Era essa a história, mas não o fizemos apenas pelo jornalismo.

Seriam quatro horas a andar, sempre a subir, até ao abrigo de montanha de onde Maria João tinha desaparecido. "Vocês não vêm?", perguntei a um dos elementos de uma equipa de reportagem de uma televisão portuguesa. "Eh pá, não dá...!, respondeu-me, referindo que o peso do equipamento, câmara e tripé, era demasiado. As equipas de reportagem dos três canais lutavam pela melhor história. Nenhuma delas quis subir até ao abrigo. Iriam ficar à espera que o tempo ficasse melhor para subirem no helicóptero da Guardia Civil.

Subimos, o João e eu. E custou. Dois guias de montanha e meia dúzia de montanhistas experimentados. E nós. De botas, calças de ganga, impermeáveis, gorro, luvas, o que tivesse sido sacado à pressa do roupeiro lá de casa. No abrigo já se encontravam mais de 20 pessoas, a lotação estava esgotada e começava a escassear a comida. Não se ouvia um queixume. Estavam todos ali para ajudar.

Ao sexto dia, nada. Aproximava-se o fim-de-semana, a melhoria do tempo e estava quase a ser anunciado o fim das buscas. Voltámos para baixo. Duas horas de caminho. Exaustos, chegámos ao parque de campismo, tomámos um banho, jantámos, bebemos um copo e deixámo-nos ir. Tínhamos que subir na manhã seguinte, de volta ao abrigo, mas não acordámos a tempo. O helicóptero com as televisões já tinha partido.

"Vamos lá outra vez?", perguntou-me o João. Vamos.
Começámos a caminhada quando vimos um grupo a pé, a descer.
Maria João Pinto tinha sido encontrada. Estava no fundo de uma ravina com quase 100 metros.
Não havia mais nada a fazer.
O marido voltara com a Guardia Civil, junto do corpo.

Da comunicação social, só lá estávamos nós.
Não me lembro de ter tirado uma nota sequer da conversa que mantive com o viúvo.
Meia hora depois, chegaram os holofotes dos directos.
"O que é que sente?", perguntaram-lhe.


25/11/10

Malta que não interessa a ninguém

Os jornalistas são, provavelmente, os seres menos solidários que existem no panorama laboral português. Vou excluir deste universo os juízes, políticos e advogados porque estou apenas a falar da população activa.

Como dizia, se há classe profissional que se está a marimbar para os colegas, é a dos jornalistas. E deste ramo, onde me incluo, fazem parte redactores e fotógrafos, os 'canetas' e os 'bate-chapas'.

Dois exemplos:

- Se um redactor escreve uma peça do caraças, com uma investigação árdua, um tema pungente e uma retórica cativante, só vai receber dois tipos de elogios - os genuínos (dos seus verdadeiros amigos pessoais que também são jornalistas) e os de circunstância (de jornalistas que se dizem seus amigos, mas só escrevem ou fotografam para o umbigo e criticam tudo o que lhes possa fazer sombra).

- Na semana passada fui a um lançamento de um livro que tinha também uma exposição de fotografia, óptima, diga-se de passagem. As fotos são de um foto-jornalista português. Sabem quantos fotógrafos estavam lá presentes? Vi apenas um para lá dos que foram cobrir o lançamento do livro. 

Redactores e fotógrafos têm, de modo geral, os egos demasiado inchados. 
Julgam que, por aparecerem nas páginas de jornais e revistas, ecrãs de televisão ou através da rádio, estão acima de qualquer crítica. Pensam que os elogios para os trabalhos dos outros são uma demonstração de fraqueza e das suas próprias limitações.

Enganam-se.
Elogiar o trabalho de um colega, quer se conheça ou não pessoalmente, é um acto de solidariedade. Tal como é o de criticar negativamente uma peça ou uma imagem. Isto se a crítica for baseada em factos e não apenas na dor de cotovelo, no umbigo ou à luz do grupinho de iluminados de que se faz parte. 

Deixo um conselho aos meus amigos jornalistas: diversifiquem o âmbito das vossas amizades. Fica mais fácil manter contacto com o mundo real.

23/11/10

Foi bom, não foi?

Vi em rodapé televisivo, ouvi na rádio, li no jornal, procurei na Internet e pensei: "Será que é mesmo verdade?" A questão fazia todo o sentido. Pelo menos, para mim.

Por um lado queria acreditar que, finalmente, um líder espiritual dos católicos tinha dito alguma coisa acertada em relação ao preservativo e ao seu uso. Afinal, já passaram mais de 3000 anos (exacto, três mil) desde que os egípcios começaram a usar algo semelhante ao preservativo na protecção contra as doenças sexualmente transmissíveis. Depois das tripas de animais, das faixas de tecido ou das protecções de couro, o preservativo em látex, tal como o conhecemos, surgiu. Já foi na década de 1950, mas mesmo assim não havia meio de um Papa assumir a sua importância na luta contra doenças terríveis. Seja ela a sífilis ou aquela outra que todos os anos ajuda a matar milhões - e infecta muitos mais - em todo o Mundo. Como é que aquilo se chama mesmo?...

Sida. É isso.

Pois... Tentei informar-me melhor sobre as declarações revolucionárias de Bento XVI. Então, mas o homem nunca disse uma palavra acertada sobre o assunto e agora, de repente, o preservativo já é uma coisa mais ou menos boa? Hummm... cheirou-me a esturro. E não é que estava certo?

Já hoje, um porta-voz do Vaticano veio explicar melhor a coisa. Veio quase que assustado, depois de ver tantas boas reacções às palavras progressistas e inteligentes da sua -dele- Santidade.
E rectificou.

Afinal, o Papa não quis dizer que o preservativo deve ser usado a torto e a direito (não resisti...).
Só pode ser utilizado em casos excepcionais e como medida de protecção, podendo reduzir o risco de infecção. Deu, Bento XVI, o exemplo dos "prostitutos". Não o dos trabalhadores da prostituição em geral, só eles. Quanto a elas, não foram especificadas medidas de protecção.

E fiquei também a saber que, no livro de onde teriam sido sacadas as progressistas e inteligentes afirmações de Bento XVI - Luz de Deus: O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos, está também escrito: "Os preservativos não são a melhor forma de lutar contra o mal da sida".

Em Julho de 1920, quando Joseph e Maria Ratzinger, futuros pais do petiz Joseph, se conheceram (dizem as más-línguas, através de um anúncio de jornal), não sabiam ainda que o preservativo poderia ter outra função além de salvar vidas: evitá-las.

16/11/10

Carlos Teotónio Pereira

                                                                         O Independente, 2001

Acordei sobressaltado.
Pouco passava das nove da manhã, talvez menos. Estava a dormir há três ou quatro horas.
"Tou, Ricardo... tenho uma coisa muito triste para te dizer. O Carlinhos faleceu".
Nem teve um acidente, nem está muito mal, nem houve um desastre, nada. Não! Faleceu. Morreu.
Pá!
Chapada na cara, murro no estômago, puxar o tapete, desabar o Mundo, todas as frases feitas são ridículas. Não havia outra maneira de o dizer, não há forma correcta de se dar uma notícia assim. Não se deseja a ninguém ter que o fazer. Dizer a alguém que um dos seus melhores amigos já não está vivo é um pontapé nos tomates. Anos mais tarde, calhou-me a dor de ter que dizer a um pai que o filho tinha morrido.
Não há forma correcta de se dar uma notícia assim. Não se deseja a ninguém ter que o fazer.

Em 2002, gastávamos as recentes e escassas notas de euro que recebíamos em noites de fecho do jornal que se prolongavam quase até de manhã. O Mundo tinha mudado: Bin Laden era o inimigo público número um, Daniel Pearl, do Wall Street Journal, tinha sido sequestrado e barbaramente assassinado, Milosevic estava a ser julgado em Haia, Savimbi deixara de ser um problema em Angola, Timor acabava de se tornar independente, Lula conseguira finalmente chegar ao poder e os EUA invadiam o Afeganistão.
De tudo isto falámos à mesa da Tasca do Careca, nos almoços no Beiradouro ou nas escapadelas para as escadas de incêndio do prédio da Almirante Reis. Sempre com opiniões contrárias e discussões acaloradas que terminavam em gargalhada. Terminavam com a gargalhada dele.

Ele e eu éramos água e azeite. Tínhamos tudo para não nos misturarmos e conseguimos iludir a química ou a física ou lá o que é que separa os líquidos. De um lado, uma educação católica, conservadora, de Direita, do antigamente, uma família influente. Do outro, eu.
Unimo-nos por uma secretária, por um computador, pelo prazo de fecho, pelos caracteres para entregar, pelas tricas da redacção, pelas conquistas do coração, pelas loucuras até às tantas, por uma amizade sem classes, pura.

"A ver se combinamos alguma coisa esta semana..."
"Claro, meu querido!"
E mais umas gargalhadas valentes com insultos terríveis à masculinidade um do outro.
"Liga-me".

Nunca mais lhe telefonei. Não houve tempo.
Não consigo apagar o número da memória do meu telemóvel - Carlinhos Teot: 919302571.
Passam hoje exactamente oito anos.
Em 2002, o Óscar de Melhor Filme foi para A Beautiful Mind.
Bate certo.



28/10/10

Eu é que sou o capitão da minha alma

Gosto de épicos.
Filmes, livros, biografias, histórias, heróis, momentos, recordações, pessoas, amores.
Gosto de momentos como o do discurso do treinador interpretado por Al Pacino no filme 'Any given Sunday'.
Gosto do Humphrey Bogart a despedir-se de Ingrid Bergman em 'Casablanca'.
Gosto de reviravoltas históricas como a do Manchester United contra o Bayern de Munique na final da Liga dos Campeões ou a defesa do Ricardo sem luvas no Euro 2004.
Gosto da emoção que senti no cemitério do Alto de São João quando passou o que sobrava de José Saramago.
Gosto de palmas que não acabam e beijos que ficam para sempre.
Gosto do 'Wish you were here' dos Pink Floyd a tocar alto no rádio.
E do 'Learning to fly' do Tom Petty.
Gosto da águia Vitória a voar antes dos jogos.
Gosto de uma história que acaba bem.
Tenho saudades das duas madrugadas e um dia de resgate dos mineiros chilenos.
Arrepio-me quando oiço o cometa a passar no 'Whole of the Moon' dos meus Waterboys.
E gosto de mensagens fortes.
Como esta.

Invictus,
by William Ernest Henley



Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

30/09/10

Corta e cose

Hoje, andei trinta e tal anos para trás.
Uma pequena cirurgia levou-me a um hospital. 
Foi agendada a semana passada e hoje começou com meia hora de atraso. 
Sim, foi num hospital privado. 

Nem 20 minutos estive deitado. Nem as calças ou os ténis tive que tirar. Só levei a touca na cabeça e as protecções para os pés. Já ia medianamente anestesiado de casa - não é nenhuma piada com álcool, eram dez da manhã - com uma pomada para passar na área afectada. Deitei-me, ele passou-me um spray desinfectante, depois Betadine e saca da agulha: "Lembra-se que eu disse que era só uma picada?", perguntou. 
Sim, disse-lhe.
"É esta", continuou enquanto me picava a pele em vários locais. Virou-se para trás, pediu para preencherem uns papéis, clamou por um bisturi, trocou meia dúzia de palavras com as enfermeiras e com a médica assistente e voltou à carga: "Isto assim, dói-lhe?" 
Não, disse-lhe enquanto fitava o típico candeeiro sobre a mesa de operações, parecido com o do dentista, mas maior. Foi isso que me fez voltar trinta e tal anos atrás.

Devia ter uns três anos ou coisa assim. Brincava num canteiro de flores sem as ditas, só com terra. Era em mármore e ainda hoje faz a divisão entre os prédios na rua dos meus pais, na praceta com nome de poeta que me ajudou a vir para as Letras. Tropecei, caí e parti a cana do nariz na esquina do mármore. Doeu. E só me lembro das luzes, do candeeiro do hospital, da agulha e do fio a passar do lado esquerdo para o direito do nariz. Foi a última vez que estive num hospital para ser cosido. Até hoje.

Não pensei no papel do Serviço Nacional de Saúde. Não me importei com isso. Felizmente tenho um seguro que me permitiu ser consultado e intervencionado por menos de 60 euros. Tenho sorte. Levou uma semana. Daqui a outra volto lá para uma consulta de pós-operatório.

"Pronto, Ricardo, já está", diz-me ele depois de ter dado uns quantos pontos na pele e de termos falado do aumento do IVA para 23% ao ritmo do fio e da agulha. "Então e essas férias?", perguntei-lhe. "Agora estou a pensar em Bali". Na semana passada, quando nos vimos pela primeira vez, questionou-me sobre as Maldivas. Disse-lhe que era melhor não, a não ser que fosse praticante de mergulho e quisesse passar uma semana romântica.

Um dia, o Serviço Nacional de Saúde não vai ser assim.
Mas era bom que fosse.

24/09/10

Falta de Luz

Tenho aqui duas notícias que gostaria de partilhar.
Uma é dos últimos dias de Julho deste ano.
A outra é desta semana, final de Setembro.

A primeira, in Correio da Manhã, rezava assim:


Lucro da EDP sobe 19% no primeiro semestre

O lucro da EDP subiu 19 por cento no primeiro semestre deste ano, face aos mesmo meses do ano anterior, para 639 milhões de euros.
A segunda está fresquinha, in Jornal de Notícias:

EDP vai pedir autorização para donativo voluntário na factura da luz

A empresa portuguesa anunciou hoje que vai pedir aos seu clientes que, voluntariamente,  contribuam com quatro euros anuais ou 30 cêntimos por mês para ajuda aos refugiados da ONU.


Pois bem, vamos lá por partes.
Eu não tenho nada contra os refugiados da ONU. Nada de nada! E tenho a certeza que merecem ser ajudados de todas as formas possíveis.

Só deixo uma questão: uma empresa que tem lucros de 639 milhões de euros no primeiro semestre do ano precisa de pedir mais quatro euros aos seus clientes para poder fazer boa figura e ajudar os refugiados?

Se os 10 milhões de portugueses e residentes em Portugal fossem todos clientes da EDP, a quatro euros cada um, isso significaria um donativo de 40 milhões, certo? E se esses 40 milhões saíssem directamente dos 639 milhões do lucro semestral?