Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



14/05/08

CADA UM TEM O QUE MERECE


Um grito

Outubro de 2002. Quase 60 anos depois, o local está invadido por um silêncio que envergonha. Como foi possível? Percorrem-se os caminhos de gravilha que cortam a direito entre zonas tristes de relva. Cada bloco de edifícios, cada gradeamento, cada degrau das escadas grita de revolta. De dor, de angústia, de morte.

Pequenos grupos de pessoas caminham lentamente e sem ruído. A cada passada, o arrastar das pedras, num cuidadoso ritual de não querer acordar os mortos. Dois velhos ficam imóveis em frente ao muro cinzento marcado pelos orifícios das balas. Falam entre eles, sempre baixinho. Os filhos e netos aproximam-se, colocam-lhes os braços por cima, abraçam-nos. Abraçam-se.

É a primeira vez que cá voltam desde o dia em que foram libertados. Escaparam com vida a um local onde milhões não tiveram essa sorte. Mostram os números tatuados no braço, só falam polaco, mas isso pouco interessa. O que têm para transmitir não precisa de tradução.
Sobreviveram a Auschwitz e voltaram para mostrar à família o local onde passaram os piores dias das suas vidas.

Os velhos percorrem todos os corredores, querem ver tudo o que o agora museu tem para mostrar. As salas onde se amontoam toneladas de cabelo, de dentes, de próteses daqueles para quem a vida não foi justa e que pagaram pela intolerância e violência maquiavélica de um regime.

Choram, nunca deixam de chorar durante as horas que ali passam.
E eu sinto vergonha. A vergonha alheia. Peço-lhes desculpa sem ter tido qualquer tipo de responsabilidade. Peço-lhes desculpa em nome do que poderia ter sido feito para evitar a tragédia. E agradeço-lhes a lição de vida que me acabam de dar. Há momentos que não se esquecem

Encontros imediatos


Afinal, pode existir vida fora do planeta Terra. Milhões de pessoas em todo o Mundo acreditam em extra-terrestres e nem sempre são bem vistos por isso. Mas a opinião de Jose Gabriel Funes tem outro impacto. Ele é padre jesuíta e director do jornal Observatório do Vaticano e acaba de admitir que pode haver um planeta habitado por seres que não cometeram o pecado original. Continua a acreditar que Deus foi o criador do Universo, mas não põe de lado a hipótese de haver vida noutros planetas: ""Tal como existe uma multiplicidade de criaturas na terra, poderia haver outros seres, igualmente inteligentes, criados por Deus", afirmou este astrónomo. E vai mais longe, ao sugerir que haja uma referência ao "nosso irmão extraterrestre", do mesmo modo que São Francisco de Assis falava de "irmão" ou de "irmã" para todos os seres que habitam a Terra.

Nada mal. Aí está um pequeno passo para o Homem e um grande salto para a Humanidade. Há uns séculos, torturaram, queimaram e mataram quem defendia que a Terra era redonda e que não estava no centro do Universo. Hoje já acreditam que pode haver vida fora daqui. Por este andar, mais século, menos século, até vão defender o uso do preservativo.

13/05/08

Los Peseteros


Acordo, venho à net ver as notícias e abro o DIÁRIO DIGITAL. Fico a saber que o Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas (CNEDM) da Ordem dos Médicos propõe que os médicos passem a cobrar até 20% se o doente não aparecer na consulta sem avisar. Esfrego os olhos, espreguiço-me e começo a ler novamente a notícia. É mesmo verdade. Trata-se de uma proposta de revisão do Código Deontológico que prevê essa medida.


Logo a seguir percebo que o Código Deontológico já prevê essa cobrança aos doentes que faltam sem avisar, como se tratasse de um sinal. Fico também a saber que Rui Nunes, presidente da Associação Portuguesa de Bioética, está contra esta medida, esta regra que "acentua a visão mercantilista da medicina". E o senhor deixa a questão: "Quando um médico se atrasa cobra uma consulta mais barata?". Nem mais, Rui Nunes. Nem mais.

12/05/08

Verdade ou consequência?


Em véspera do 13 de Maio, no aniversário daquela que foi considerada a primeira aparição da Senhora de Fátima aos três pastorinhos, vamos tentar saber a vossa opinião sobre o assunto. O que pensam do fenómeno 'Fátima'? Acreditam que a Senhora apareceu às três crianças ou, pelo contrário, foi tudo uma mentira pegada? Terá sido um fenómeno natural ou, de facto, aconteceu um milagre mas a Igreja Católica fez um aproveitamento da situação? Vamos lá pôr o dedo na ferida: têm uma semana para votar. Obrigado.

Vá para fora

A sondagem da semana passada chegou ao fim. A pergunta era fraquinha, mas obrigado pela participação. Era para saber qual seria o melhor país para viver e trabalhar, uma vez que os últimos dados apontam para 5 milhões de portugueses a residir fora de Portugal. O leque de opções era variado e por pouco não havia um vencedor destacado. Mas houve. Os passageiros cá do blog optaram pelos EUA. O sonho americano teve direito a 23% dos votos. Espanha, Luxemburgo, Austrália, Brasil e Inglaterra conseguiram 15% das preferências e ficaram todos na segunda posição. Quanto a Suiça, Alemanha, França e Andorra não tiveram direito a qualquer voto.

10/05/08

Levanta-te e ri!


Boavista desce de divisão e leva uma multa de 180 mil euros (coacção sobre árbitros).
João Loureiro suspenso por quatro anos e multa de 25 mil euros.
FC Porto perde seis pontos e paga multa de 150 mil euros (tentativa de corrupção).
Pinto da Costa suspenso por dois anos e dez mil euros de multa.
União de Leiria perde três pontos e apanha multa de 40 mil euros.
João Bartolomeu suspenso por um ano e multa de quatro mil euros.

Nos árbitros, penas de suspensão para Augusto Duarte (seis anos), Jacinto Paixão (quatro anos), Martins dos Santos (três anos e meio), José Chilrito e Manuel Quadrado (dois anos e meio) por "corrupção consumada".

Há por aí algum perito em leis que me possa explicar como é que os árbitros são condenados por corrupção consumada e ninguém é condenado por corrupção activa? É que para haver um corrompido tem de haver um corruptor...

E estas suspensões, de que valem? Irradiações do futebol, essas sim poderiam dar o exemplo. Agora, suspensões? Vão continuar a fazer o mesmo, mas agora nos bastidores, sem dar a cara. Os cordelinhos vão continuar a ser puxados, as viagens vão continuar a ser pagas, tal como as prostitutas e os empurrões nas classificações no final de cada época.

Doa a quem doer, o futebol português tem de mudar. Isto ainda não é nada.


09/05/08

Indy à venda


Passam exactamente 20 anos desde o dia em que O Independente foi para as bancas pela primeira vez. Era sexta, tal como hoje. Só que hoje foi o dia em que os bens e o título do semanário O INDEPENDENTE estiveram em leilão nas antigas instalações do jornal, Avenida Almirante Reis, 113. Depois do fracasso financeiro que levou ao encerramento em definitivo da publicação em Setembro de 2006, hoje foi o dia em que tudo o que restava do Indy esteve em hasta pública. Arquivo do jornal, fotografias, equipamento de escritório, material diverso, mobiliário, fotocopiadoras, computadores, electrodomésticos, a edição encadernada de O Independente desde 1988 até 2005, diversos livros e vários lotes de papel de jornal estiveram à espera de licitações. A base global era de 310 495 euros. As marcas Independente e O Independente tinham um valor base de 25 mil euros e o título do jornal teve como base de licitação 150 mil euros. A dívida total ronda os quatro milhões de euros e entre os credores estão o Estado, ex-trabalhadores, bancos e fornecedores. O valor atingido foi miserável, não chegando aos 20 mil euros no total.


Aquilo que não esteve em leilão foi a amizade, nem o companheirismo, a loucura, a diversão, a anarquia, as discussões acaloradas, os jantares tardios, as praxes, os fechos até altas horas, as directas a trabalhar, os computadores que não paravam de bloquear, os telefonemas históricos para as fontes, o choro, o riso, a paixão, as festas no Tóquio, os copos no Careca, os petiscos na redacção do Caderno 3, as voltas de carro pela Almirante Reis ou os engarrafamentos e as paredes a precisar de pintura nas escadas do prédio. Parabéns a quem teve a honra de lá passar.

Velhos são os trapos


Chuva no horizonte em quase todo o país. Não será aquele fim-de-semana de sonho em termos meteorológicos, mas podemos torná-lo bem mais apetecível. Aqui ficam, como já é habitual, algumas sugestões para animar os dias que se seguem. Divirtam-se!


1 - Na zona ocidental de Lisboa foi inaugurado o Museu do Oriente. Fica na Doca de Alcântara, a entrada custa 4 euros e vai misturar história com religião, arte e antropologia. Cinema, música, dança, teatro, conferências e muito mais também vão estar na ementa. Um museu que se quer diferente.

2 - Está aí mais uma edição da World Press Photo. As fotografias mais importantes de 2007 vão estar expostas no Museu da Electricidade, em Lisboa. E da mostra também fazem parte os trabalhos referentes ao Prémio de Fotojornalismo Visão/BES. Em Julho, a exposição segue para Portimão.

3 - Acaba de estrear 'Shine a Light'. O filme realizado por Martin Scorsese revela, ao longo de duas horas, uma visão inédita do mundo dos Rolling Stones quando em concerto. Para fãs e não só.

4 - Rui Costa vai deixar de jogar. Domingo, às 20h15, na Catedral da Luz, frente ao Vitória de Setúbal, o futebol português fica sem um dos seus melhores jogadores de sempre numa das épocas mais miseráveis do Benfica. Obrigado, Maestro!

5 - Miranda do Douro. Há posta mirandesa, há o mirandês (a segunda língua oficial de Portugal), há o Douro Internacional e a sua paisagem de sonho. E muito mais! Vale bem uma viagem até lá.

08/05/08

Cristiano Ronaldo na Sábado


A revista SÁBADO está hoje nas bancas. Da edição desta quinta-feira consta um artigo sobre Cristiano Ronaldo. O melhor futebolista português da actualidade já vai com 40 golos marcados nesta época e no final deste mês será lançado em Portugal o livro 'Cristiano Ronaldo, A verdadeira história do melhor futebolista do planeta'. A autoria é de Tom Oldfield, jornalista inglês ligado ao mundo do futebol. E o prefácio da edição portuguesa é de Aurélio Pereira, o formador de estrelas do Sporting CP. A Sábado traz uma compilação feita por mim de excertos, em primeira mão, do livro da editora Difel que estará à venda a partir de 28 de Maio. A chegada a Lisboa, os problemas familiares ligados ao álcool e às drogas, a adaptação a Manchester, os casos amorosos, a zanga com Ruud van Nistelrooy e o caso Rooney são apenas alguns dos temas tratados. Hoje e até à próxima quinta-feira na Sábado.

07/05/08

CADA UM TEM O QUE MERECE


À nossa, tio!

José e Laura deixaram Portugal no início do século XX. Estava-lhes no sangue a aventura, o desejo de ter uma vida melhor fora de um país que nem sempre os tratou bem. Entraram num barco e rumaram à América do Sul quando pouca gente pensava em fazê-lo. Na Argentina tiveram um filho. No Uruguai, outro. No Brasil, mais dois. E voltaram a Portugal, 15 anos depois para ter o último filho do casal. Lacier, Heitor, Josué, Arquimedes e Adelino. Por esta ordem.

De Córdoba a Montevideu , de São Paulo a Setúbal, a terra-mãe. Já na Europa, e com os filhos mais velhos a atingir a maioridade, chega a notícia do serviço militar. Tinham que o cumprir nos respectivos países. E a família Matias começou a separar-se. Mas só fisicamente.
Lacier voltou à Argentina, entrou para a Força Aérea, ultrapassou todas as fases, chegou aos postos mais elevados. Casou, teve três filhas - Laura, Inês e Alice - e tornou-se próximo de quem só se ouve falar nos livros de História. Evita e Juan Perón estavam no auge e partilhavam as suas gargalhadas com ele.

Cada vez que os irmãos e as respectivas famílias se reencontravam, fosse no Brasil ou em Portugal, não havia política à mesa. Só as histórias de sempre, as intermináveis sessões de cartada. À frente da mesa de 'crapô', com todas as cartas dispersas ou alinhadas, ele olhava para mim e dizia orgulhoso, no seu português sul-americanizado que teimava em não esquecer: "Capablanca, Capablanca". Era a sua referência, o famoso jogador de xadrez a quem tinham analisado o cérebro e descoberto potencialidades sobre-humanas.

Os dedos das mãos começavam a fechar-se. A atrofia dos tendões é a orgulhosa doença dos homens desta família. Os dedos uns sobre os outros, dobrados, quase que formando um círculo. "Não há problema. Tem o formato perfeito para o copo". E era mesmo verdade. Fosse de vinho branco ou de ginjinha, tinha sempre um copo na mão. Ajustava-se a ele.

Já depois dos 85 anos saíu de casa das filhas, para onde tinha ido morar depois de um segundo casamento que tinha chegado ao fim. Foi viver com um dos netos. Nessa altura, enviava-me emails. Tinha descoberto a internet. Continuava a fazer os seus inúmeros passeios a pé, sempre ligeiramente curvado para a frente, com os braços e as mãos atrás das costas. Sempre em passo rápido e miudinho.

O tio-avô Lacier morreu ontem, quase a chegar aos 92 anos. Se o São Pedro existir, deve estar com os portões escancarados. É que, como ele dizia - mais por graça do que por convicção - "já devo muitos anos ao Senhor". E ria-se com os olhos, afastava-se até à cozinha e enchia o copo mais uma vez para depois voltar com outra história mirabolante.