Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



02/04/08

CADA UM TEM O QUE MERECE

Uma cerveja no paraíso

Cinco dias a caminhar. Entre os 1500 e os 3800 metros de altitude, aos altos e baixos pelos Andes. Às costas, uma pequena mochila com um agasalho, uma garrafa de água, a máquina fotográfica, o bloco de apontamentos e um saco com folhas de coca. A maior das mochilas vai no lombo do burro, guiado na perfeição pelos carregadores. Saem sempre do acampamento depois de nós e chegam ao local combinado muito antes.

Os pés já estão a passar para o azul, depois da vermelhidão e das comichões iniciais. Só doem ao final do dia, quando o corpo tem tempo para descansar. A mente, essa, passou o dia a viajar, a deitar contas à vida, a fazer projectos e a analisar erros do passado. Só a falta de oxigénio impediu que os pensamentos fossem mais profundos. "Estamos quase", diz-me o Coelho. "Só falta o quase". A última noite antes de Aguas Calientes é passada num baldio de uma pequena aldeia cujo nome se apagou. Não sei mesmo se teria nome. Tinha, claro. Tinha nome de um qualquer santo espanhol como tantos outros lugares na América Latina. Um rés-de-chão com as portas fechadas é o bar da aldeia. Freddy, o guia peruano, faz meia dúzia de contactos e em cinco minutos as portas estão abertas, a bola de espelhos já roda e a música sai do computador. Na parede, um poster da Tina Turner e outro de uma praia paradisíaca. Saem cervejas atrás de cervejas, são oito da noite, mas podiam ser seis da manhã. É a descompressão. Amanhã só temos que caminhar quatro horas, coisa leve, comparada com as dez dos dias anteriores.

O despertar é o de sempre, um abanão da tenda e a voz do Cochiuato, o cozinheiro da expedição: "Buenos dias portugueses! de Coca." Lá vem o chá que mata o mal de altitude e acorda o corpo para a última caminhada. Tudo é feito com mais calma, estamos quase a chegar. Aguas Calientes é o retrato do turismo, a porta de entrada em Machu Picchu, não vale a pena perder muito tempo por lá. Tirando o posto médico, a injecção cavalar para matar a infecção nos pés e as 12 horas seguidas de sono, pouco mais me lembro.

Às seis da manhã estamos a entrar no santuário de Machu Picchu. Sem palavras, apenas com silêncio. Chegámos. É aqui. Não se escondem emoções. Ajoelho-me e baixo a cabeça. Estou sozinho, somos cerca de 20 pessoas num dos mais fantásticos locais do planeta. Está cada um para seu lado, a exorcizar os seus fantasmas, a recuperar a fé perdida em nós próprios. Portugal está do outro lado do Mundo, à beira de outro Oceano. O sol já queima quando, por volta do meio dia, sacamos do pão e das latas de atum. Estamos com Sven, um holandês comissário de bordo que se prepara para sentir Portugal no Peru. Saca-se o canivete e abrem-se as duas garrafas de meio de litro de Super Bock, trazidas desde Lisboa. As mãos estão lambuzadas de azeite e atum, o pão está rijo e a cerveja está quente, está morta. Mas foi um dos melhores almoços da minha vida.

6 comentários:

Cochiuato disse...

Calças cheias de óleo de atum mesmo à Inca Style.
Só foi pena o Atum não ser Ramirez.

Anónimo disse...

Olha que dois!...
Admiro a vossa bravura, certamente não estaria à altura desse desafio...
R.

Soph disse...

No mesmo lugar.
Experiências diferentes.
Sentimentos similares.
Emoções fortes.


... sem nunca pensar que esse lugar ainda me viria a surpreender tanto.
Depois de lá estar.
Depois de regressar.

Ricardo Santos disse...

Pois é Soph, a vida dá grandes voltas... Grazie!

Ana Brasil disse...

A melhor coisa que algum dia li tua. Gosto deste gajo. O que é que lhe aconteceu? Ficou preso em Machu Picchu?

Ricardo Santos disse...

Aninha, Aninha, estragas-me com mimos. Esse gajo conseguiu voltar a Portugal, mas para encontrá-lo é preciso estar de olhos abertos e de cabeça limpa.