Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



16/04/08

CADA UM TEM O QUE MERECE


Um sorriso no deserto

Ela e os irmãos estavam no meio do nada. A uma hora a pé da aldeia mais próxima, a meia hora do mar. Assim que os camelos cruzaram a última montanha, começaram a correr em direcção a nós. Meia dúzia de palmeiras, duas tendas abertas, uns tapetes poeirentos espalhados pelo chão com almofadas a rodeá-los. No centro, uma bandeja com pequenos copos de chá quente, muito quente. Chegou-se a nós, abriu os olhos do tamanho do Mundo e desarmou-nos com um sorriso que não se explica.

Estávamos a meio caminho entre Sharm-el-Sheik e a Arábia Saudita, com os olhos postos no Mar Vermelho e nas rochas inóspitas que não convidavam a aventuras. Acima dos 40 graus de temperatura, não apetece fazer nada, apenas ficar por ali, deitados nos tapetes. Ela não nos largou. Não me lembro do nome da miúda. É que não me lembro mesmo. Só me recordo ter ido à mochila e encontrado um presente de Natal. Estávamos em Julho. Uma pequena bola de vidro com um pedestal, daquelas que se abanam e milhares de partículas brancas fingem ser neve. No centro, um Pai Natal obeso, barbudo e vestido de vermelho. O normal. Passei-lhe a bola para as mãos. Toma, é para ti.

Aqueles olhos engoliram-me. Moviam-se para um e outro lado, as mãos tremiam-lhe. Tinha seis anos, estava descalça, o cabelo seco e a roupa suja. Abraçou-nos e saiu a correr do tapete em direcção aos irmãos e aos amigos. Uns mais velhos, outros mais novos. Abanavam a bola, encostavam os olhos ao vidro, como se quisessem entrar para outro mundo. Os miúdos estavam em delírio. Ela ainda mais. Foi ter com o pai, mostrou-lhe a prenda. O egípcio de meia-idade olhou na nossa direcção e parece que terá movimentado a cabeça em sinal de agradecimento. Não me lembro se aconteceu ou se desejei que tivesse sido verdade. Sem largar o brinquedo, veio novamente para junto de nós. Sentou-se no meio, com uma mão em cima da perna de um e a cabeça encostada ao braço do outro. Abriu-me a mão e deu-me uma pulseira feita pelo pai para vender aos turistas.
É uma prenda para ti.
Obrigado.

8 comentários:

Anónimo disse...

Estas crianças mereciam muito mais...

Lembrem-se disto sempre que forem de viagem e levem algumas coisas pequenas que já não tenham uso ou nem estejam na moda mas que para alguém é tudo. Ver a legria de quem recebe e uma sensação muito boa.

Cátia

Ricardo Santos disse...

Não custa nada. E vale mais que tudo.
Gracias!

Cochiuato disse...

Ou então entreguem mantas aos sem abrigo, eles agradecem, ou recusam.

Kate disse...

Tens razão pai cochiuato mas vou continuar a tentar...

Soph disse...

Nem SÓ de MANTAS precisa um Sem-Abrigo...

... e em viagens... levo sempre BALÕES!

Encantam.
Podemos levar mais que 100.
Não pesam.
São mágicos.
Voam.

:)

Depois de ler "uns" textos teus... este é, até agora, o meu favorito!

Ricardo Santos disse...

Gracias Soph.
Gostei do "até agora.."

Bicho d'Ouvido disse...

Também te foge a água para o canto dos olhos, de vez em quando, não? :) Muito tocante e muito bem escrito. Parabéns.

Ricardo Santos disse...

Pois é, às vezes foge. E sabe bem.
Grazie, miúda!