Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



19/07/11

O mundo não é dos cinzentos

Diz-nos o Diário de Notícias - e outros meios de comunicação - que a Universidade Católica desaconselha a utilização de chinelos e bermudas aos seus alunos, professores e funcionários. No Facebook, a boa nova espalha-se de forma viral, com comentários para todos os gostos. Não são poucos os que aprovam a medida, tal como também é elevado o número daqueles que a ridicularizam.

A Católica é um estabelecimento de ensino privado. Quem o frequenta, paga e bem para lá estar. Regras são regras e quem lá estuda tem que viver com elas. A meio do jogo, o árbitro resolveu criar uma nova, mas é a vida. Chinelos e calções, equipamentos desportivos e outras coisas demoníacas do género não têm lá lugar. Aceita quem quer. E cabe a quem quiser o acto da contestação.

Não são poucas as vezes em que surjo nas redacções com as quais colaboro, de calções e ténis, de jeans e havaianas e quase sempre de t-shirt. Não envergo a camisola do Glorioso no dia-a-dia porque essa é apenas para ser usada na Catedral e iria sentir-me bastante revoltado se me impedissem de entrar num local de trabalho por estar de calções e chinelos. Mas isso sou eu, que gosto de ver o mundo com cores alegres e vestimentas descontraídas, sejam elas em tecido ou fruto da mente.

Para fatos cinzentos e camisas às riscas, já me basta o pensamento dominante.

18/07/11

Portugal Positivo

Ontem, domingo, 17 de Julho, a revista Notícias Magazine, brindou-nos com o artigo 'Portugal Positivo', da jornalista Leonor Moreira. A entrada do texto é clara: "Há muitos seguidores da ideia de que o pensamento positivo sobre uma determinada realidade altera-a. De forma intuitiva e nada científica, só por não aguentarem mais o miserabilismo, vários portugueses usam a web para pensar positivamente acerca do país e da realidade."

É mesmo isso.
Já não se aguenta este miserabilismo vigente. Não há pachorra, usando o bom português, com ou sem acordo ortográfico.

Ao longo do artigo - muito bem escrito e estruturado, diga-se - Leonor Moreira, dá exemplos de gente que não se conforma. Patrícia Maia, editora do jornal online Boas Notícias, é uma dessas pessoas. Um trabalho notável, digo eu, o que ela e a sua equipa têm vindo a desenvolver. As palavras de Boaventura Sousa Santos também não foram esquecidas, tal como o destaque dado a este vosso/nosso blog. Se ainda forem a tempo, não percam esta edição.

E nunca se esqueçam de olhar para o lado solar da vida.

15/07/11

Não só é possível, como é bom.

Michel Cartier vive em Portugal há 18 anos, foi adido cultural da embaixada francesa em Lisboa e lançou um livro, uma espécie de dicionário, sobre "as manias, contradições e características" dos portugueses. Deu-lhe - ele ou a editora - um nome curioso: "Como É Possível Ser Português?".

Vejo-o no noticiário da manhã da TVI, calhou passar pelo canal esta manhã. A falar um português esforçado, de fato e gravata, Cartier acaba por não se conseguir explicar convenientemente ao jornalista. Tem dificuldade em responder às perguntas directas que lhe são feitas - "Mas vamos a exemplos práticos de manias dos portugueses". O francês remete para as 365 entradas que o seu dicionário tem, uma para cada dia do ano. A custo, lá diz que os portugueses têm muita conversa e bla bla bla. Refere Fernando Pessoa uma e outra vez, mas não me aquece nem arrefece.

É o título da sua obra que me afasta. "Como é possível?" Eu respondo-lhe sem rancores, senhor Cartier. É possível com orgulho e sem preconceito. Não sei se reparou, mas provavelmente o seu tiro editorial foi dado ao lado. Não é este o momento para se meter com estes homens e mulheres que, como referiu na apresentação do seu dicionário, "se não existissem teriam que inventá-los".

A economia portuguesa está no lixo, mas a essência de cada um de nós não. Sim, temos muita conversa. Sim, gostamos demasiado de futebol, choramos com o fado, deliramos com um almoço prolongado, bebemos uns copos a mais, estoirámos (ou será alguns de nós estoiraram?) os subsídios europeus e agora estamos com a corda na garganta. Temos esses e muitos mais defeitos, 365 ou mesmo mais, mas felizmente temos uma das políticas de integração de estrangeiros mais bem conseguida de todo o mundo.

Veja bem, caro Cartier. Somos tão bons a receber, que até o temos por cá a escrever livros sobre os nossos hábitos culturais e enquanto povo. É possível ser português. Não só é possível, como é bom. E difícil, mas já andamos cá há muito tempo. Temos muita coisa para mudar para sermos melhores, mas temos ainda mais coisas para preservar para podermos continuar a ser bons.


05/06/11

Contas feitas

Já falta pouco para ser a sério, mas a votação que decorreu durante esta semana no Jornalismo Positivo já deu frutos.

Desde já, aqui fica o agradecimento aos 46 "eleitores" que se deram ao trabalho de deixar a sua preferência nestas Legislativas que valem o que valem.

E agora, eis os resultados. Pode ser que alguns batam certo com o que se vai passar mais logo. Outros estarão muito longe, mas o objectivo foi cumprido: chamar a atenção para um dever cívico num país onde um em cada três portugueses costuma ficar em casa quando chega a hora de fazer ouvir a sua voz através do voto.

Resultados:

PPD/PSD.....  30% (14 votos)

CDU ...........  19% (9 votos)

CDS-PP ...... 13% (6 votos)

PS ...............  8% (4 votos)

BE ................  6% (3 votos)

MEP .............  4% (2 votos)

PCTP/MRPP.  2% (1 voto)

PNR .............  2% (1 voto)

Em Branco .... 10% (5 votos)

Nulos ............ 2% (1 voto)



23/05/11

Sondagem que vale o que vale

No próximo 5 de Junho, os portugueses vão a votos.

Mais do que encontrar culpados ou salvadores, estas Legislativas devem servir para mostrar que os cidadãos ainda se preocupam. Votar, mais do que um direito, é um dever. Nem que seja para honrar aqueles que, antes de nós, não o puderam fazer de forma livre durante décadas.

O que vos peço é simples.
Escolham a vossa preferência na barra aqui ao lado e votem.
A sondagem de opinião vai estar disponível até às 12h de sexta-feira, 3 de Junho.
Os resultados estarão disponíveis logo a seguir.

Em jeito de recordação, e para que possam comparar com o que se irá passar na noite eleitoral e entender quem ganhou e quem perdeu, aqui ficam os resultados das Legislativas de 27 de Setembro de 2009 com percentagens, número de votos, de mandatos no Parlamento, brancos, nulos e afluência.

Obrigado.

LEGISLATIVAS 2009

PS: 36,55 % - 2 077 695 votos - 97 Deputados

PPD/PSD:  29,11% - 1 654 777 votos - 81 Deputados

CDS-PP: 10,43% - 592 997 votos - 21 Deputados

BE: 9,82% -  558 062 votos - 16 Deputados

CDU: 7,86% - 446 994 votos - 15 Deputados

PCTP-MRPP: 0,93% - 52 784 votos - 0 Deputados

MEP: 0,45% - 25 475 votos - 0 Deputados

PND: 0,38% - 21 476 votos - 0 Deputados

MMS: 0,29% - 16 616 votos - 0 Deputados

PPM: 0,27% - 15 090 votos - 0 Deputados

MPT-PH: 0,22% - 12 307 votos - 0 Deputados

PNR: 0,20% - 11 628 votos - 0 Deputados

PPV: 0,15% - 8 533 votos - 0 Deputados

PTP: 0,08% - 4 789 votos - 0 Deputados

POUS: 0,08% - 4 320 votos - 0 Deputados

MPT: 0,06% - 3 240 votos - 0 Deputados

Em Branco: 1,74% - 99 161 votos

Nulos: 1,37% - 78 023 votos

Afluência: 59,74% - 5 683 967 votantes

Inscritos: 9 514 322



21/03/11

Exodus

                                                 A caminho do Monte Zion, Jamaica, Março 2011

Jimmy conduzia a carrinha a uma velocidade aceitável. Desviava-se dos buracos na estrada enquanto comíamos os quilómetros entre Ocho Rios e Nine Mile. "Em Portugal também há estradas assim?", perguntou.
Há. Não tantas como na Jamaica, mas também há.

Jimmy era professor de Educação Física. Dava aulas a crianças do quinto ano, "aquela idade em que começam a pensar por eles e isso dava-me um grande prazer".
E então, porque foi que desististe?
"O ordenado de professor não dava para levar a vida que quero". Eram quinhentos dólares americanos por mês. O ordenado mínimo no país ronda os cinquenta.
O que é que um jamaicano pode comprar com um dólar?
"Um refrigerante e um pastel de carne... duas embalagens de arroz".

Os quilómetros passavam a boa velocidade, tal como os temas da conversa: o amor incondicional de um pai por uma filha, a família de professores, a extracção de alumínio das serras jamaicanas, o facto de não existirem McDonald's na ilha porque o governo fez finca-pé para que a carne dos famosos hambúrgueres fosse exclusivamente jamaicana e a multinacional recusou e Bob Marley.

Claro. A hora e meia de viagem tinha por objectivo ver o local onde nasceu e está sepultado Bob Marley.
Por 19 dólares, podem descobrir-se recantos da vida do maior embaixador do país.

Descalços, demos a volta ao pequeno mausoléu onde o cheiro a marijuana não se estranha e fizemos a foto da praxe junto à cama de solteiro do rei do reggae. Essa mesmo, a do Is This Love, "we'll share the shelter of my single bed". Foi bom.

Jimmy é filho de um polícia. Quer voltar a ser professor. Nada lhe dá mais prazer. Tem família nos EUA e convites para ir para lá trabalhar. Não quer. Quer fazer a diferença no seu país. "A Jamaica é muito mais que Bob Marley. E eu gosto muito dele e da música. Mas é muito mais que isso!"

Pois é.

27/01/11

Onde é que acaba o jornalista e começo eu?

Há pouco mais de 10 anos, vivi uma das experiências mais marcantes da minha curta carreira de jornalista.
Ao serviço do jornal O Independente fui destacado - com muita vontade minha - para cobrir as operações de busca e salvamento de Maria João Pinto, professora de Braga desaparecida nos Picos da Europa, Espanha. Era o final de Agosto de 2001.

Nada. Não havia sinal da senhora. Adepta do montanhismo, tinha ido com o marido e um grupo de outras pessoas para os Picos da Europa. O trekking dava os primeiros passos mediáticos em Portugal. Maria João e o marido estavam num refúgio de montanha a mais de dois mil metros de altitude. A dado momento ela saiu para dar um passeio à volta do refúgio, caiu um denso nevoeiro e terá perdido a noção do espaço e das distância. Já tinham passado quatro dias e não havia meio de a encontrar.

Saímos de Lisboa, o fotógrafo João Pedro Branco e eu, na companhia de um amigo do casal que nos tinha chamado à atenção para esta história. Voámos para Oviedo e dai seguimos de automóvel até ao parque de campismo de Cangas de Onis, a base do acampamento do grupo da montanhista. Montámos a tenda, metemos a mochila às costas - o João com o peso suplementar do material fotográfico - e atacámos a montanha para nos juntarmos ao grupo de buscas. Era essa a história, mas não o fizemos apenas pelo jornalismo.

Seriam quatro horas a andar, sempre a subir, até ao abrigo de montanha de onde Maria João tinha desaparecido. "Vocês não vêm?", perguntei a um dos elementos de uma equipa de reportagem de uma televisão portuguesa. "Eh pá, não dá...!, respondeu-me, referindo que o peso do equipamento, câmara e tripé, era demasiado. As equipas de reportagem dos três canais lutavam pela melhor história. Nenhuma delas quis subir até ao abrigo. Iriam ficar à espera que o tempo ficasse melhor para subirem no helicóptero da Guardia Civil.

Subimos, o João e eu. E custou. Dois guias de montanha e meia dúzia de montanhistas experimentados. E nós. De botas, calças de ganga, impermeáveis, gorro, luvas, o que tivesse sido sacado à pressa do roupeiro lá de casa. No abrigo já se encontravam mais de 20 pessoas, a lotação estava esgotada e começava a escassear a comida. Não se ouvia um queixume. Estavam todos ali para ajudar.

Ao sexto dia, nada. Aproximava-se o fim-de-semana, a melhoria do tempo e estava quase a ser anunciado o fim das buscas. Voltámos para baixo. Duas horas de caminho. Exaustos, chegámos ao parque de campismo, tomámos um banho, jantámos, bebemos um copo e deixámo-nos ir. Tínhamos que subir na manhã seguinte, de volta ao abrigo, mas não acordámos a tempo. O helicóptero com as televisões já tinha partido.

"Vamos lá outra vez?", perguntou-me o João. Vamos.
Começámos a caminhada quando vimos um grupo a pé, a descer.
Maria João Pinto tinha sido encontrada. Estava no fundo de uma ravina com quase 100 metros.
Não havia mais nada a fazer.
O marido voltara com a Guardia Civil, junto do corpo.

Da comunicação social, só lá estávamos nós.
Não me lembro de ter tirado uma nota sequer da conversa que mantive com o viúvo.
Meia hora depois, chegaram os holofotes dos directos.
"O que é que sente?", perguntaram-lhe.


25/11/10

Malta que não interessa a ninguém

Os jornalistas são, provavelmente, os seres menos solidários que existem no panorama laboral português. Vou excluir deste universo os juízes, políticos e advogados porque estou apenas a falar da população activa.

Como dizia, se há classe profissional que se está a marimbar para os colegas, é a dos jornalistas. E deste ramo, onde me incluo, fazem parte redactores e fotógrafos, os 'canetas' e os 'bate-chapas'.

Dois exemplos:

- Se um redactor escreve uma peça do caraças, com uma investigação árdua, um tema pungente e uma retórica cativante, só vai receber dois tipos de elogios - os genuínos (dos seus verdadeiros amigos pessoais que também são jornalistas) e os de circunstância (de jornalistas que se dizem seus amigos, mas só escrevem ou fotografam para o umbigo e criticam tudo o que lhes possa fazer sombra).

- Na semana passada fui a um lançamento de um livro que tinha também uma exposição de fotografia, óptima, diga-se de passagem. As fotos são de um foto-jornalista português. Sabem quantos fotógrafos estavam lá presentes? Vi apenas um para lá dos que foram cobrir o lançamento do livro. 

Redactores e fotógrafos têm, de modo geral, os egos demasiado inchados. 
Julgam que, por aparecerem nas páginas de jornais e revistas, ecrãs de televisão ou através da rádio, estão acima de qualquer crítica. Pensam que os elogios para os trabalhos dos outros são uma demonstração de fraqueza e das suas próprias limitações.

Enganam-se.
Elogiar o trabalho de um colega, quer se conheça ou não pessoalmente, é um acto de solidariedade. Tal como é o de criticar negativamente uma peça ou uma imagem. Isto se a crítica for baseada em factos e não apenas na dor de cotovelo, no umbigo ou à luz do grupinho de iluminados de que se faz parte. 

Deixo um conselho aos meus amigos jornalistas: diversifiquem o âmbito das vossas amizades. Fica mais fácil manter contacto com o mundo real.

23/11/10

Foi bom, não foi?

Vi em rodapé televisivo, ouvi na rádio, li no jornal, procurei na Internet e pensei: "Será que é mesmo verdade?" A questão fazia todo o sentido. Pelo menos, para mim.

Por um lado queria acreditar que, finalmente, um líder espiritual dos católicos tinha dito alguma coisa acertada em relação ao preservativo e ao seu uso. Afinal, já passaram mais de 3000 anos (exacto, três mil) desde que os egípcios começaram a usar algo semelhante ao preservativo na protecção contra as doenças sexualmente transmissíveis. Depois das tripas de animais, das faixas de tecido ou das protecções de couro, o preservativo em látex, tal como o conhecemos, surgiu. Já foi na década de 1950, mas mesmo assim não havia meio de um Papa assumir a sua importância na luta contra doenças terríveis. Seja ela a sífilis ou aquela outra que todos os anos ajuda a matar milhões - e infecta muitos mais - em todo o Mundo. Como é que aquilo se chama mesmo?...

Sida. É isso.

Pois... Tentei informar-me melhor sobre as declarações revolucionárias de Bento XVI. Então, mas o homem nunca disse uma palavra acertada sobre o assunto e agora, de repente, o preservativo já é uma coisa mais ou menos boa? Hummm... cheirou-me a esturro. E não é que estava certo?

Já hoje, um porta-voz do Vaticano veio explicar melhor a coisa. Veio quase que assustado, depois de ver tantas boas reacções às palavras progressistas e inteligentes da sua -dele- Santidade.
E rectificou.

Afinal, o Papa não quis dizer que o preservativo deve ser usado a torto e a direito (não resisti...).
Só pode ser utilizado em casos excepcionais e como medida de protecção, podendo reduzir o risco de infecção. Deu, Bento XVI, o exemplo dos "prostitutos". Não o dos trabalhadores da prostituição em geral, só eles. Quanto a elas, não foram especificadas medidas de protecção.

E fiquei também a saber que, no livro de onde teriam sido sacadas as progressistas e inteligentes afirmações de Bento XVI - Luz de Deus: O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos, está também escrito: "Os preservativos não são a melhor forma de lutar contra o mal da sida".

Em Julho de 1920, quando Joseph e Maria Ratzinger, futuros pais do petiz Joseph, se conheceram (dizem as más-línguas, através de um anúncio de jornal), não sabiam ainda que o preservativo poderia ter outra função além de salvar vidas: evitá-las.

16/11/10

Carlos Teotónio Pereira

                                                                         O Independente, 2001

Acordei sobressaltado.
Pouco passava das nove da manhã, talvez menos. Estava a dormir há três ou quatro horas.
"Tou, Ricardo... tenho uma coisa muito triste para te dizer. O Carlinhos faleceu".
Nem teve um acidente, nem está muito mal, nem houve um desastre, nada. Não! Faleceu. Morreu.
Pá!
Chapada na cara, murro no estômago, puxar o tapete, desabar o Mundo, todas as frases feitas são ridículas. Não havia outra maneira de o dizer, não há forma correcta de se dar uma notícia assim. Não se deseja a ninguém ter que o fazer. Dizer a alguém que um dos seus melhores amigos já não está vivo é um pontapé nos tomates. Anos mais tarde, calhou-me a dor de ter que dizer a um pai que o filho tinha morrido.
Não há forma correcta de se dar uma notícia assim. Não se deseja a ninguém ter que o fazer.

Em 2002, gastávamos as recentes e escassas notas de euro que recebíamos em noites de fecho do jornal que se prolongavam quase até de manhã. O Mundo tinha mudado: Bin Laden era o inimigo público número um, Daniel Pearl, do Wall Street Journal, tinha sido sequestrado e barbaramente assassinado, Milosevic estava a ser julgado em Haia, Savimbi deixara de ser um problema em Angola, Timor acabava de se tornar independente, Lula conseguira finalmente chegar ao poder e os EUA invadiam o Afeganistão.
De tudo isto falámos à mesa da Tasca do Careca, nos almoços no Beiradouro ou nas escapadelas para as escadas de incêndio do prédio da Almirante Reis. Sempre com opiniões contrárias e discussões acaloradas que terminavam em gargalhada. Terminavam com a gargalhada dele.

Ele e eu éramos água e azeite. Tínhamos tudo para não nos misturarmos e conseguimos iludir a química ou a física ou lá o que é que separa os líquidos. De um lado, uma educação católica, conservadora, de Direita, do antigamente, uma família influente. Do outro, eu.
Unimo-nos por uma secretária, por um computador, pelo prazo de fecho, pelos caracteres para entregar, pelas tricas da redacção, pelas conquistas do coração, pelas loucuras até às tantas, por uma amizade sem classes, pura.

"A ver se combinamos alguma coisa esta semana..."
"Claro, meu querido!"
E mais umas gargalhadas valentes com insultos terríveis à masculinidade um do outro.
"Liga-me".

Nunca mais lhe telefonei. Não houve tempo.
Não consigo apagar o número da memória do meu telemóvel - Carlinhos Teot: 919302571.
Passam hoje exactamente oito anos.
Em 2002, o Óscar de Melhor Filme foi para A Beautiful Mind.
Bate certo.