Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



06/03/08

Exageros


Em 2008, em pouco menos de três meses, temos assistido a algumas manifestações de repúdio em relação a determinadas campanhas publicitárias. Desta vez é a a Associação Nacional do Ramo Automóvel que se mostra irritada com o Banco Espírito Santo. Em causa estão os anúncios em que os vendedores de automóveis são retratados de acordo com as suas mais variadas características: uns fazem-se de coitadinhos, outros de amigos, de chicos-espertos ou de sentimentais. A Associação afirma que os vendedores e a sua imagem são denegridos e ameaça tomar uma "posição firme" se a campanha não for retirada.

A publicidade faz parte da nossa vida, entra no nosso dia-a-dia, domina-nos, obriga-nos a tomar decisões, leva-nos a escolher entre este e aquele produto. Com a televisão, as campanhas passaram a ser pequenos filmes, histórias curtas que procuram passar a mensagem do anunciante. E muitos dos 'reclames' ficam para a história, como os da a pasta medicinal Couto, do restaurador Olex ou do 'Tô Chim da Telecel. Na publicidade, tudo é permitido. Ou melhor, quase tudo é permitido.

No início deste ano, estalou a polémica entre escuteiros e a empresa Media Markt. Tudo porque os vendedores de electrodomésticos e a agência de publicidade com quem trabalham resolveram criar o reino da Parvónia para as suas campanhas, fazendo jus ao 'slogan' 'Eu é que não sou parvo'. De um grupo de quatro pessoas, uma delas está vestida como um escuteiro e isso irou os congéneres portugueses. Há um abaixo-assinado contra a Media Markt a correr na internet e o assunto é tabu se tiver de falar com um actual ou antigo escuteiro. Cuidado!

Se as crianças com menos de três anos tivessem direito a expressar a sua opinião e se reunissem numa qualquer associação, o que diriam das campanhas publicitárias de fraldas, papas de cereais e detergentes para a roupa? É que em todas elas, as crianças são retratadas como pequenos seres sem qualquer tipo de higiene que passam os dias a encher fraldas de excrementos e urina e que transformam as roupas que vestem em pedaços de tecido nojentos e mal-cheirosos cravejados de nódoas de comida.

2 comentários:

Ricardo Rodrigues disse...

Não concordo que as criancinhas sejam assim retratadas: se reparares, só se vêem bebés lindíssimos, com sorrisos felizes...

Agora, no que toca aos escuteiros, a coisa pia de outra maneira. A agência de publicidade usou a maior associação juvenil do mundo e decidiu classificá-la. Parvónia, dizem.
Bem sei que a imagem da farda escutista é muitas vezes ridicularizada socialmente [toda a gente conhece a piada que «os escuteiros são um grupo de meninos vestidos de parvos, comandados por um parvo vestido de menino»]. Mas, para quem é ou já foi escuteiro, ela é em si um valor e um símbolo da inexistência de classes sociais na associação [todos se vestem de igual, não há camisolas da Levis e camisolas da praça a marcar diferenças].

Será que alguém concordaria que se gozasse com as associações de formação, voluntariado e solidariedade social? Alguém acharia de bom gosto classificar de parvónia os tipos que são voluntários da Abraço, fazem Apoio aos Sem-Abrigo ou Assistência aos Idosos? Não me parece.

Gozar com vendedores de carros, taxistas ou polícias é uma coisa - são profissões. Agora, gozar com quem faz voluntariado e disponibiliza tempo a tentar esbater as diferenças sociais é um gesto rude e irresponsável.

Ricardo Santos disse...

Eu sabia que podia contar contigo para esta polémica. Aliás, parece feito de propósito, mas não o foi.

Novo campanha da Skip, é bom sujar-se. Um miúdo esfrega-se numa poça de lama enquanto chove copiosamente até ficar completamente imundo. Não me parece muito normal.
Anúncios de fraldas. De facto, as crianças estão todas felizes e a sorrir, mas não deixam de passar a mensagem que passam a vida borradas, assadas, a chorar e sujas. Também não me parece normal.
Quanto aos escuteiros, penso que a reacção da corporação foi exagerada. Se não tivessem dado importância à coisa, o assunto teria morrido ali. Bastava que tivessem ignorado, mas estão perfeitamente no seu direito de protestar. Não concordo com as tuas razões porque os taxistas,vendedores de carros ou polícias estão tão susceptíveis de ser criticados ou gozados como os escuteiros. Também eles prestam serviços ao público. Não voluntário, é certo, mas quem anda à chuva molha-se.
E o coitado pastor da Telecel? Seria necessário passar a imagem de que não era muito inteligente, falava demasiado alto e tinha um sotaque acentuado do Norte? Talvez não fosse necessário, mas a piada estava mesmo aí, no exagero.
Respeito e até consigo entender o teu ponto de vista, mas não concordo. E isso é o melhor de tudo, opiniões diferentes.
Gracias e mantém-te sempre alerta!