Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



15/07/11

Não só é possível, como é bom.

Michel Cartier vive em Portugal há 18 anos, foi adido cultural da embaixada francesa em Lisboa e lançou um livro, uma espécie de dicionário, sobre "as manias, contradições e características" dos portugueses. Deu-lhe - ele ou a editora - um nome curioso: "Como É Possível Ser Português?".

Vejo-o no noticiário da manhã da TVI, calhou passar pelo canal esta manhã. A falar um português esforçado, de fato e gravata, Cartier acaba por não se conseguir explicar convenientemente ao jornalista. Tem dificuldade em responder às perguntas directas que lhe são feitas - "Mas vamos a exemplos práticos de manias dos portugueses". O francês remete para as 365 entradas que o seu dicionário tem, uma para cada dia do ano. A custo, lá diz que os portugueses têm muita conversa e bla bla bla. Refere Fernando Pessoa uma e outra vez, mas não me aquece nem arrefece.

É o título da sua obra que me afasta. "Como é possível?" Eu respondo-lhe sem rancores, senhor Cartier. É possível com orgulho e sem preconceito. Não sei se reparou, mas provavelmente o seu tiro editorial foi dado ao lado. Não é este o momento para se meter com estes homens e mulheres que, como referiu na apresentação do seu dicionário, "se não existissem teriam que inventá-los".

A economia portuguesa está no lixo, mas a essência de cada um de nós não. Sim, temos muita conversa. Sim, gostamos demasiado de futebol, choramos com o fado, deliramos com um almoço prolongado, bebemos uns copos a mais, estoirámos (ou será alguns de nós estoiraram?) os subsídios europeus e agora estamos com a corda na garganta. Temos esses e muitos mais defeitos, 365 ou mesmo mais, mas felizmente temos uma das políticas de integração de estrangeiros mais bem conseguida de todo o mundo.

Veja bem, caro Cartier. Somos tão bons a receber, que até o temos por cá a escrever livros sobre os nossos hábitos culturais e enquanto povo. É possível ser português. Não só é possível, como é bom. E difícil, mas já andamos cá há muito tempo. Temos muita coisa para mudar para sermos melhores, mas temos ainda mais coisas para preservar para podermos continuar a ser bons.


6 comentários:

Flávio Miguel Mota Pereira disse...

olá ricardo, vi um pouco da reportagem que tu e 2 pessoas fizeram sobre portugal na positiva na noticias magazine e tenho que admitir. Bons blogues falam português correcto de forma positiva e integrante. Os jornais e os midia aproveitam-se de um pais quando ele está no pior e é preciso um pouco engradecer os nossos tugas. Depois da ditadura muito de mal tem passado e não tem havido muito por onde pegar de bom. Mas sigo-te aqui.

Rosa dos Ventos disse...

E ainda mais, Monsieur Cartier, os franceses adoram pendurar-se nos amigos portugueses para terem férias com comida da boa, bebida da melhor, roupa lavada e tudo de graça!

goiaba disse...

Gostei de saber que há quem se preocupe em divulgar boas notícias e a valorizar o que de bom há por cá. Há anos que, no blogue em que colaboro, há "Boas Notícias" pelo menos ao domingo!! Temos dado a esse apontamento nome diferente a cada 40 domingos e já estamos na 3ª ou 4ª rodada. Quase sempre as Boas Notícias são de Portugal.
( www.marquesices.blogspot.com)

cintia disse...

Ricardo, pode dar-me o seu email?

Obrigada cintia

Ricardo Santos disse...

Flávio, obrigado pelas palavras e por me seguires. De facto, muitas vezes as boas notícias vêm escondidas atrás das outras, as que abrem telejornais, mas estamos cá - todos - para as lembrar.

Rosa dos Ventos, damos uma chapada de luva branca. Eles vêm a pensar que temos todos bigode (homens e mulheres) e somos todos porteiras ou ladrilhadores e enganam-se redondamente.

Goiaba, é bom ver que somos cada vez mais. Vou passar a seguir esse blog, obrigado.

Cintia, o meu email é o que está nos contactos deste blog, mas aqui vai: ricsantos23@gmail.com. Obrigado.

Rosa dos Ventos disse...

Eu já sigo o blog da Goiaba! :-))