Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



28/05/08

Sympathy for the Devil



Tinha acabado de entrar numa redacção pela primeira vez. Começava a abrir os primeiros documentos no computador, passava os olhos pelos jornais, olhava em volta com vontade que ninguém reparasse em mim. Sentava-me onde calhava, estagiário não tinha direito a mesa. Todos os dias, de manhã, ele entrava na sala. Largava um bom-dia em tom rouco. Punha os jornais em cima da secretária, ligava o computador e virava costas ao ecrã. Acendia um cigarro.




Uma vez por semana, procurava-me na sala sem saber o meu nome. Chegava com um monte de folhas brancas rabiscadas e o nome de um, dois, três livros. "Faça-me o favor de confirmar o preço destes livros nestes estabelecimentos." Virava costas e continuava a editar a secção de Cultura do Independente. Eu era o estagiário e fazia-lhe a vontade. Finda a tarefa, entregava-lhe os papéis e ele agradecia sem olhar para mim, absorto nos textos que tinha para ler e escrever.



Voltámos a encontrar-nos cinco anos depois na Grande Reportagem. Uma vez mais ele seria meu editor. Falei-lhe dos tempos do Independente, de ter sido seu estagiário. Lembrava-se de mim, dizia ele. Não era verdade, era pura simpatia. Ambos sabíamos. E nunca lhe levei a mal por isso. Passámos a colegas de trabalho e acabámos por nos tornar amigos.

Nunca consegui tratá-lo por tu, apesar das tentativas do Torcato para que isso acontecesse. Acabada a GR, ficámos sentados frente a frente na NS - Notícias Sábado. Passávamos os dias a trocar piropos e provocações anarco-sindicalistas. Ele contava-me histórias de um mundo que eu desejei ter vivido. Falava-me do salto para Espanha, para a França e a vida na Bélgica no tempo da ditadura, dos tempos de Coimbra. Partilhávamos a paixão por Havana, pelos clássicos americanos e pela vida.



"Ó Ricardo, olhe que aquilo está muito complicado...", dizia ele sempre naquele tom de voz de Adamastor quando falava do nosso clube. Depois ria-se, acendia mais um cigarro e pedia-me ajuda para resolver um qualquer problema no computador. Normalmente tudo se resolvia com dois ou três cliques. E ele encolhia os ombros: "Isto para mim, só serve para escrever". O Torcato Sepúlveda era o Google de qualquer redacção. Sabia tudo. Detinha todas as informações que não existiam na internet - quem tinha escrito o quê, quando, onde e como.

De cada vez que iniciava um texto, abria o documento em branco e escrevia 'Merda'. Qualquer que fosse o tema, o conteúdo, o estilo, o tamanho. Sempre a mesma palavra, 'Merda'. Depois começava a juntar-lhe outras letras, palavras, frases, parágrafos e surpreendia-nos. Surpreendia-se.


Tinha sempre um maço de tabaco em cima da mesa, um maço comunitário. Quem quisesse, chegava e servia-se. O mesmo fazia com as informações, com a lista telefónica, com o dinheiro, com os conhecimentos. Dividia tudo por todos, sem competição ou concorrência.



No dia do meu casamento, o Torcato esteve igual a si próprio. Deu-me um abraço forte. Baixou a cabeça e os olhos e disse-me: "Parabéns Ricardo. Parabéns". Recuou, quase envergonhado com uma mão no bolso e a outra a puxar o longo cabelo branco para trás. Por volta da meia-noite estávamos no meio da pista de dança, eufóricos, bem bebidos, quando começaram os acordes de 'Sympathy for the Devil', dos Rolling Stones. Mick Jagger gritava "Please allow me to introduce myself / I'm a man of wealth and taste / I've been around for a long, long year... " e o Torcato elevou o copo aos céus, deu quatro ou cinco pequenos passos para frente e, depois, os mesmos para trás. Curvava-se quando recuava, ficando quase ao nível do chão. Depois levantava a cabeça e avançava sem medo. De olhos fechados a cantarolar o refrão: " Pleased to meet you / Hope you guessed my name..."



Há uma semana, tomei banho no Mar Morto, mergulhei na cultura da Jordânia, soube de histórias espantosas entre judeus e árabes, fiz perguntas e tive respostas, tomei notas e tirei conclusões. Ao final do dia, pedi uma Piña Colada para ver o pôr-do-sol. Como em Havana. Estava a ser um dia sensacional. O meu telefone estava desligado, adormecido no quarto do hotel. Levantei-me, movido não sei bem por que razão. Liguei o telemóvel e senti que precisava falar para casa. Não era nenhum pressentimento, só uma vontade de ligar para casa. "Não tenho boas notícias", ouvi desde Portugal. O silêncio durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para adivinhar o que vinha a seguir: "O Torcato faleceu esta tarde".






Merda.






























5 comentários:

kate disse...

Muito bonita a tua homenagem,
Ricardo...
E tenho a certeza que o Torcato estará sempre connosco.
Ele é uma pessoa inesquecível!

Noronha disse...

Não conheci o Torcato a não ser pela escrita. Mas conheci-te pela escrita e conheci-te no terceiro plano que nos torna a todos dimensionalmente trilógicos.

E oi nesta escrita que te admirei sempre, nesta arte quase mágica de tornar o mais insondável e admirável mistério no mais banal dos vizinhos e pensarmos: como é que ele o consegue?

A escrita revela-nos e é a maior ilusionista que conheço: a maior das simplicidades esconde sempre o maior dos truques.

Long live Torcato - a long Life to thee!

Ricardo Santos disse...

Here, here!
Cheers, mate!

Anónimo disse...

Sentir é viver e viver é também sentir os outros.O ciclo da vida mistura-nos os momentos felizes e os angustiantes.Não é só o amor que move o mundo, são também "palavras" como essas, carregadas de emoções e afectos que nos convencem de que a humanidade ainda faz sentido.Parabéns pela sensibilidade e pela junção de palavras, ao longo deste livro virtual.

Ricardo Santos disse...

O 'livro virtual' continua todos os dias, graças às vossas visitas e ao desejo de contar histórias. Infelizmente, nem todas acabam bem. Mas têm que ser contadas. Obrigado