Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



17/08/09

Para o Eddy

Proença-a-Nova, Portugal


Já colocaste a tua vida nas mãos de outra pessoa?

Provavelmente fazemo-lo todos os dias. Basta atravessar uma passadeira, algum condutor alterado ou distraído pode não parar. Basta andar de carro com um amigo imprudente a conduzir. Mas aí estarás a colocar de modo indirecto a tua vida nas mãos de outra pessoa.

Numa daquelas reportagens alucinadas que tive a oportunidade de fazer para a NS - Notícias Sábado, propus-me a saltar de pára-quedas, num salto tandem, e contar/escrever a experiência. A proposta foi aceite e segui para o centro do país onde a empresa Sky Dive oferecia esses serviços ao público em geral.

Dobrados os pára-quedas, explicados procedimentos de segurança. Eddy, o instrutor e proprietário da empresa, convidou-me a subir para o avião. Levámos cerca de 20 minutos a atingir os 14 mil pés de altitude, qualquer coisa como 4000 metros. À medida que subíamos, o estômago apertava. Éramos 12 pessoas, sentados, de cócoras, à espera que o momento chegasse. Quando a campainha de segurança tocou e as portas se abriram, lá em baixo só se viam campos de cultivo, cortados por estradas e aquilo que pareciam casas.

Eddy estava atrás de mim, estávamos ligados, íamos saltar juntos, instrutor e instruendo. "Saltas quando quiseres", disse-me ele. Era o que estava mais perto da porta. Pensei duas vezes, claro, mas saltei, com ele.

Durante um minuto fomos em queda livre a uma velocidade de quase 200 km/hora, mal dava para respirar. O salto foi filmado, tirámos fotografias, é uma experiência única.

Peraí! E se ele não abre o pára-quedas? Será que vou conseguir abrir o de emergência? E se ele estiver farto da vida e decidir não abrir isto? A preocupação esteve na minha cabeça durante alguns segundos, demasiados. Estava a colocar a minha vida nas mãos de um estranho.

Um puxão demasiado forte deu-me a resposta, o pára-quedas estava aberto. Minutos depois, sentados no chão, em terra firme, Eddy libertou os mosquetões que nos prendiam. Levantei-me, dei dois passos em direcção a ele e dei-lhe um abraço sentido. "Obrigado, Eddy. Muito obrigado, mesmo!"

Eddy Resende era o piloto da aeronave que se despenhou este fim-de-semana em Évora. Tinha 40 anos, dois filhos e quando se apercebeu da avaria no avião, ordenou que toda a gente saltasse. Ficou a bordo com João Silva, amigo e também ele pára-quedista, e tentaram aterrar em segurança. Não conseguiram, embateram num prédio e tiveram morte imediata.

Antes de nos despedimos, nessa tarde de há três anos, Eddy falou da relação que estabelecia com os seus clientes: "Eu telefono a quem tenha saltado comigo e toda a gente me atende o telefone, mesmo que estejam no meio de uma reunião ou a fazer qualquer coisa importante. Não sei porquê, devem estar agradecidos por eu ter aberto o pára-quedas".

Eu estou.

3 comentários:

Soph disse...

Eu estou ARREPIADA...

Cheguei de férias e vim ler-te!

Resolvi ler tudo o que tens escrito nestes últimos 15 dias - ah... gosto de te ler! Pois é!

E parei aqui.

Fiquei arrepiada e em pele de galinha.

Escutei a notícia por alto... lembro-me de a ter escutado na tv enquanto passada da sala para a cozinha.

Mas agora.

Parei a lê-la.

O Eddy.

O Eddy foi a pessoa a quem confiei o presente do 40º aniversário para a minha mana - num salto tandem.

Aquele fim de tarde em Évora... foi EXCELENTE.

... obrigada por teres SEMPRE o pára-quedas aberto.

Casal disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Ricardo Santos disse...

É bom estares de volta, miúda. Obrigado. Mesmo.