Porquê? Why?

Há histórias que têm que ser contadas.
Há exemplos que têm que ser seguidos.
Há personagens que têm que ser desvendadas.
E nós merecemos um jornalismo diferente que nos mostre que ainda vale a pena.



26/08/09

Pois como eu já disse, racismo é burrice

Courchevel, França

Há momentos em que parece que está tudo do avesso, que os fiscais da EMEL só implicam com o meu carro, que aquele velhote escarra para o chão mesmo quando eu estou a passar por ele, que aquele nabo no trânsito teima em não andar, indiferente à minha pressa.

E isto não é nada, são problemazitos de merda. Basta olhar à nossa volta e ver que somos uns felizardos. É só uma questão de relativizar e seguir em frente. Mas são coisas que chateiam, que moem, que nos fazem pensar que alguma coisa tem que mudar, que o civismo deveria imperar, que o sorriso deveria ser obrigatório e que as boas maneiras deveriam ser ensinadas na escola. Mas não são.

Liguei a televisão e vi mais uma altercação social num bairro problemático. Quinta da Princesa, Seixal. Os repórteres dos três canais estavam lá, preparados para o directo. Para não variar, atrás deles, sentados em bancos de pedra, encostados a arcadas ou a circular à sua volta, estava um grupo de mais de uma dezena de moradores do dito bairro. Seriam umas três da tarde, quinze horas para ser mais exacto.

É Agosto, devem estar de férias, pensei. Todos teriam mais de 16 anos e menos de 30, idades bem boas para estar a trabalhar. Mas não estavam. Na noite anterior, alguns elementos não gostaram de ser interpelados pela polícia. Os agentes não tiveram bons modos a pedir-lhes a identificação e armou-se o escarcéu.

Houve troca de tiros, caixotes do lixo incendiados e automóveis à beira de levar com o fogo.

É o que eu digo, é uma questão de civismo, de boas maneiras. Da próxima vez que o velho passar por mim e cuspir para o chão vou incendiar-lhe o caixote do lixo do prédio. Quando o tristemente competente funcionário da EMEL me passar uma multa vou trocar uns tiros com ele. E quando aquele otário que vai à minha frente na Almirante Reis não acelerar, saio do carro com um bastão de basebol - beisebol para os puristas da língua - e rebento-lhe o vidro da frente.

Depois, refugio-me com os meus amigos nas arcadas aqui da esquina e lamento a má sorte de ter nascido sem as mesmas condições dos ricos em vez de fazer alguma coisa pela minha vida.

5 comentários:

Ana Filipa Oliveira disse...

Maravilhoso! Obrigada pela partilha deste exemplo de "jornalismo positivo, mas pessoal". Um pessoal que acredito que seja pessoal de muitos!

Vou ocupar, bem ocupado, o teu tempo e contar-te uma cena que presenciei aqui na Alemanha. Uma rapariga, por volta dos seus 20 anos, passeava o seu cão, pela trela, numa zona entre prédios, utilizada para colocarem os carros (sem ser exactamente um parque). Uma senhora, de mais ou menos 50 anos, sai de uma das lojas desses prédios com um cabide na mão e diz-lhe, com a adequada expressão corporal a acompanhar, que da próxima vez que ela visse o cão da jovem a fazer as suas necessidades ali... iria colocar a dita caca na sua caixa do correio. A rapariga pirou-se, sem nada dizer. E nós perguntámo-nos: "Para que era o cabide?"

Bem, poderia contar-te aqui mais peripécias dessas, mas prefiro convidar-te a visitares Os Desafios desde que estamos na Alemanha. Até lá.

Soph disse...

"... o sorriso deveria ser obrigatório..."

Ricardo Santos disse...

Obrigado, Ana. Já li dos teus sobressaltos na Alemanha. Keep going!

Soph, tu tás lá.

Costinhas disse...

Cheguei aqui pela mão da Soph e ela não me podia ter apresentado o teu blog com melhor post do que este.

é isso. sem mais nem menos :)

Ricardo Santos disse...

Espero que te sintas em casa aqui pelo blog. Be my guest!
Obrigado. E obrigado à Soph.