Porquê? Why?

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20/10/09

Caim? Então, levanta-te!

Santa Marta, Colômbia

Acho deliciosa a polémica em torno de 'Caim', o mais recente livro de José Saramago.
Foi lançado ontem e já os sectários de ambos os lados se movimentam. Os apaixonados por Saramago colocam o livro nas nuvens. Os opositores do Nobel massacram-no. Mas será que uns e outros tiveram tempo para ler o livro?

Duvido. O que acontece é que estão a reagir de forma cega às declarações do escritor aquando do lançamento da obra. Saramago fala da Bíblia como um "manual de maus costumes" onde pontificam histórias de incestos, carnificinas, violência. Uns aplaudem, outros horrorizam-se. E então? Do que é que estavam à espera? Que José Saramago elogiasse a religião católica e a igreja dos homens que a tem regido ao longo dos séculos? Só um ignorante poderia pensar em tal coisa.

Saramago é o que é. Escreve como escreve. Goste-se ou não, escreve sobre temas actuais, sobre a solidão, sobre a perseguição, sobre duelos interiores. E sim, escreve sobre religião, sobre as palavras da Bíblia. E depois? Não se pode questionar a Bíblia? Porquê? Dizem que é de inspiração divina, mas esses são outros quinhentos. Quem escreveu a Bíblia foram os homens e não qualquer Deus. E os homens erram e usam as palavras em benefício próprio ou para atemorizar os crentes. Tem sido a história de todas as religiões. A católica não é diferente das outras e não está acima de suspeitas.

Vou ler o livro com a mesma vontade que li o 'Evangelho Segundo Jesus Cristo' ou o "Ensaio Sobre a Cegueira'. E depois terei uma opinião sobre o livro, não sobre o escritor. É pena que outros não façam o mesmo e já estejam a "cagar postas de pescada" sobre a pessoa e não sobre 'Caim'. Seja a favor ou contra.

'Caim' e a Bíblia são obras de ficção. A primeira ainda não li, mas vou fazê-lo. A segunda também não e não tenho intenção de ler. Já vi o filme.

6 comentários:

Soph disse...

Ensaio Sobre a Cegueira - dos meus livros preferidos!

Sobre o Caim - passei-lhe os meus olhos pela capa ontem!

Ricardo Santos disse...

O Ensaio é o "meu" livro. Como escrevia ontem a um amigo: "É uma grande história. Se pensares que podes substituir a cegueira, durante a acção do livro, pelo nazismo, pelo comunismo, pelos excessos religiosos, pela fome, pela diferença sexual, por qualquer ameaça à condição humana que exista, tens ali um bom relato de onde pode chegar o ser humano. No bem e no mal."

Ainda não li o "Caim", mas vontade não me falta, só tempo.

Anónimo disse...

Não sou fanática do Saramago. Mas quem não leu o Memorial do Convento... não 'leu' e ponto. E há coisas que não dependem, felizmente, da nossa opinião, sempre arbitrária, sempre facciosa e tendenciosa. Com o Kant passa-se o mesmo. A escrita do Saramago é uma delas: não é uma questão de gosto. Era só o que faltava! Saramago escreve com o domínio total e absoluto das palavras e das suas regras, por isso se permite atropelá-las, ignorá-las, brincar com elas. Os conteúdos dos seus livros são questões universais. Era o que Sócrates, o filósofo, tentava demosntrar aos seus interlocutores: a essência das coisas, a sua universalidade, e não casos episódicos sobre isto ou aquilo. Chegar aqui, é 'pensar', é a maturidade plena de um ser humano enquanto ser pensante, enquanto ser poético, enquanto sujeito da palavra. O resto, é gente que tem de ganhar a vida a falar sobre a vida e o trabalho dos outros; e quanto mais 'original' a verborreia, melhor. AMúsico (pronto, ok)

Ricardo Santos disse...

Desta vez, à segunda linha percebi que eras tu e escusavas de assinar. Estou a melhorar. É como dizerem que o Saramago não tem sentido de humor... só quem não o leu pode dizer isso. Haverá maior piada que um Homem interpelar um Deus com questões pessoais: mas tenho mesmo que ser eu a morrer em teu nome? Não há por aí um voluntário? É que agora não me dá muito jeito, tenho uma namorada, um emprego como carpinteiro, um bom grupo de amigos que quer fazer umas patuscadas. O Judas é que é um tipo meio esquisito, mas pronto..

Costinhas disse...

Era isto que me apetecia dizer se tivesse talento para isso :)

(e eu por acaso acho que o Saramago tem um sentido de humor bem apurado)

beijinho

Ricardo Santos disse...

A sério que compreendo a indignação junto dos católicos, mas não estarão também a agir como os muçulmanos na questão dos cartoons? Claro que, com as devidas distâncias. Ainda ninguém exigiu a vida do Saramago, só lhe chamaram ignorante e pediram para renunciar à cidadania portuguesa. Não existem assuntos tabu, tudo merece discussão. E devia ser este o ponto de partida para tudo, inclusive para o diálogo ecuménico.